Wednesday, December 06, 2006

As mesas dos cafés

Eu não tenho metafísica, só tenho desejos.
As coisas podem ser o que quiserem, a mim
basta-me que toquem o meu rosto com
as mãos
e me olhem de certa maneira. A
minha metafísica é acreditar no amor e na

salvação e no resgate da solidão. Mas será
metafísica essa crença? Serão todas as crenças
vestígios da nossa necessidade de fugir ao caos
e entrar no mundo ordenado do sentido?
Não sei. Nunca estudei filosofia, li apenas
uns livros aqui e além, de vez em quando.
Se desconfio da metafísica é por ouvir dizer
que não se deve, para ser lúcido e moderno,
acreditar na metafísica, recorrer a ela como
forma de resolução dos problemas da existência.
Porque quero ser moderno e lúcido não tenho
metafísica, proclamo que me é tão estranha
a metafísica como a mitologia. Bem sei,
o mundo tem para mim algum sentido. Não
tanto como devia e há inúmeras hesitações
no meu espírito nas minhas noites de insónia.
Apesar disso não me ponho a acreditar em Deus,
limito-me a acreditar nas jovens raparigas e
nas mulheres que com a sua presença sem
metafísica nos permitem alimentar o sonho
da felicidade. Se sou metafísico é por
ingenuidade, sem o saber, ou por tolice.
Fui ao café, estava triste, aborrecia-me.
Encontrei uma rapariga minha conhecida,
ela sorriu-me sem receio e ofereci-lhe um
café. Depois disse-lhe: agora vai à tua vida,
vai estudar para o exame de amanhã. E ela
foi sentar-se com as amigas a ler
numa mesa
do café distante da minha. De
onde estava
nem sequer a via. Nem, aliás, olhei
muito
para o sítio onde ela estudava. Outros

rapazes e raparigas passavam, dois polícias
vieram
tomar um café, às vezes eu levantava
os olhos
do papel e observava-os. Incrível
como o sorriso
de uma rapariga tem o
poder de animar a vida,
ressuscitar o mundo
aos nossos olhos, encher de
esperança o coração
solitário da humanidade inteira.
Ou em todo o
caso o coração sequioso de ternura
dos exilados
que longe da pátria arrastam os dias
de um
destino de maldição. Escrevo estas coisas
com
ironia, evidentemente. Sinto-me tão bem, tão

perfeitamente bem que quem pudesse contemplar-me
no momento em que escrevo este poema não se
preocuparia com o meu estado de espírito. O tempo
leva consigo as nossas esperanças e as desilusões,
pouco a pouco entendemos que temos um destino,
que não se pode escapar à condição humana. Sofro?
Talvez. Amei, porém, sei o que é o amor. Que
importa que já me tenha esquecido e que, como
um drogado sem droga, me exaspere às vezes a
ausência de relações? É o preço a pagar pela
ambição que me trouxe para longe da casa
dos meus pais, para longe da aldeia da infância.
Teria sido mais feliz lá? Não sei. Nunca saberei.
Era um ignorante da vida e ia pelos caminhos,
sorridente, ao encontro do futuro. O futuro
era o nada, coisa nenhuma. Isto é: esperavam por
mim as mesas dos cafés onde me sentaria à noite
para interrogar-me sobre a metafísica e o sentido
da minha existência, sobre as razões por
que me afastei do amor ou ele se afastou de mim.


Santa Barbara, 26 de Outubro de 1994

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