Wednesday, December 20, 2006

Apaga-se o real

E agora enfim, adeus, pequena morte,
fim da tarde no café a contemplar
o melancólico deambular dos pássaros
no cimento, a nostalgia batendo ainda
à porta. Ninguém abre, não há casa
nem paisagem com árvores, nem o céu
tem as tonalidades que tinha na Provença.
Exílio, separação, ausência, distância.
Palavras apenas, mas para ti corre ainda
na memória a água das fontes e o passado
parece acessível como o presente. Apaga-se
o real por detrás da cortina de fumo dos
objectos que ocupam o espírito. Quem
alguma vez amou ou foi amado? Quem
alguma vez entendeu o sentido das
palavras? Equívocos. E assim construímos
a felicidade e a alegria, depois a dor e o
sentimento de ter perdido de vista o
caminho do destino. Brilhava o sol na
esplanada do café ao fim da tarde e o
espírito, tranquilo, surpreendia-se com
a falta de novidade dos acontecimentos que
deviam ser funestos. Nunca estive no lugar
heróico da plenitude como imaginava. Se
houvesse céu e inferno, eternidade, outra vida
onde eu desvendasse enfim a misteriosa densidade
do ser. Jovens raparigas sorriem, ouve-se a sua voz
límpida. Como se merecesse atenção a esperança.
Nada sei da linguagem com que enchemos de tragédia
a insignificância dos nossos gestos, do desejo.


Santa Barbara, 20 de Janeiro de 1994

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