Thursday, December 14, 2006

Acena de longe

Na primeira fila a louca ouve
falar de literatura. Na última
fila o homem que se imagina ilustre
atentamente ouve falar de literatura .
No meio da sala o pedante que se
crê especialista não se especializa:
fechou os olhos e dormita. Na sala
aberta à luz do Outono, apesar de
ser Primavera, os retratos dos ilustres
escritores, congelados em expressões
eternamente expressivas, assistem,
com tédio, à celebração do culto
antigo. Acena de longe a todos,
sorridente, a morte certa. Mas é
tempo ainda de se civilizar e
ilustrar, de deixar o bichinho
da seda da ambição roer o casulo
amarelo da solidão sem remédio.

Paris, 19 de Maio de 2000

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