Saturday, November 11, 2006

Voyeurism



Está aí no canto deixe-se estar vá bebendo o seu whisky e fumando o seu charuto eu vejo-o daqui mas você não me vê aliás você não me conhece o bar hoje está cheio miúdas e miúdos a maioria nos seus vinte e tal trinta e tal você olha-os de longe provavelmente com nostalgia e ironia e recorda-se dum tempo não tão distante como isso quando em vez de estar sentado no canto a observar você estava no meio do grupo entre os olhares e os sorrisos a seduzir ou a deixar-se seduzir não sei se é por isso porque a intensidade da nostalgia o imobiliza que não o vejo mexer a cabeça sequer você parece que se ausentou que desistiu que já não faz parte embora o seu olhar não passe despercebido a intensidade o brilho a atenção mas atento a quê seria difícil dizer você mesmo provavelmente nem se dá conta de que se deixou absorver pelos seus pensamentos recordações sei lá o quê que lhe vai passando pela cabeça é como se flutuasse numa nuvem silenciosa e lenta pelos céus sem fim.

Vejo-o concentrar o seu olhar no cabelo de uma rapariga no sorriso de outra nas ancas de uma nos braços de outra mas elas estão cercadas de rapazes a si elas nem o vêem ou talvez sim de vez em quando e talvez se sintam aduladas mais mulheres mais raparigas porque um homem mais velho com bom ar de barba muito curta esbranquiçada o cabelo ralo meio despenteado a fumar charuto e a beber whisky tranquilamente no canto do bar as observa as vê lhes presta atenção se interessa por elas a sua camisa às riscas azuis descontraída mas de boa qualidade com os botões do cimo desapertados também ajuda a valorizar o seu olhar e a sua atenção e de vez em quando elas de facto vêem-no sentem a sua presença eu já me apercebi disso e depois desviam o olhar com um vago sorriso de cumplicidade que a si o deixa embaraçado e ainda mais nostálgico mas elas voltam à conversa aliás aparentemente nunca deixaram de falar nem de estar a ouvir mas sente-se esse momento de transição quando elas regressam de o ter olhado por segundos para continuar os jogos do desejo com os rapazes da idade delas e você evidentemente não ignora o que está a acontecer experiência não lhe falta mas não se espanta nada no seu rosto trai uma emoção uma ideia um sentimento embora provavelmente esteja triste e um pouco enervado e frustrado por não poder sair do seu cantinho e misturar-se à algazarra à alegria abandonar o lugar a sua mesa onde não corre qualquer risco para entrar nos jogos de sedução de novo como antigamente vontade não lhe falta desejo não lhe falta eu sei ou se não sei pelo menos é uma hipótese a ter em consideração.

Uma das raparigas em particular mereceu a dado momento a sua atenção você descobriu-a encostada ao bar com um rapaz a conversarem e deixou de interessar-se pelas outras de as ver de passar de um sorriso a uns cabelos de uns braços a uns seios de uma nuca a umas pernas e então concentrou-se de maneira muito visível nela naquela por qualquer motivo a camisa azul masculina o cabelo aloirado escuro os olhos azuis não sei mas ela despertou em si a inquietação eu vi-o enfim mover-se vi-o descruzar as pernas apoiar a cabeça na mão esquerda olhar para o tecto e depois largar no ar já viciado do bar uma baforada de fumo de charuto o cheiro chegou até aqui onde eu estou a dois metros de si numa mesa encostada à parede e por detrás de uma coluna de madeira depois você recuperou a tranquilidade a imobilidade mas não deixou de olhar para a rapariga que entretanto se apercebeu de que era objecto da sua atenção e se sentiu um pouco incomodada só um pouco ficou surpreendida é natural mas percebeu que você não era um tipo banal que havia na sua atitude solitária ali no canto do bar qualquer coisa que lhe lembrava o desespero romântico aquele de que falam os poetas aquele que se crê que atormenta os artistas digamos que ela entendeu que a sua solidão não era uma solidão aborrecida antes pelo contrário que nada do que se passava à sua volta escapava ao seu olhar que tudo o que você via os rostos as atitudes lhe interessava e era como se ver viver os outros fosse para si uma paixão o que o tornava notado o que a levou depois de um breve momento de hesitação a prestar-lhe também uma atenção particular a si meio nervosamente por vezes porque ela tinha vindo com um homem que de copo de cerveja na mão conversava com ela e ela visivelmente não queria deixar entender que estava dividida agora entre a atenção às palavras dele e a atenção à figura melancólica e silenciosa que daquele canto do bar onde a luz era ainda mais escassa se concentrara nela com uma atenção curiosidade talvez ternura inesperadas e quem sabe se incómodas se suspeitas.

Entretanto enquanto ia bebendo o meu gin tónico creio ter compreendido outras coisas eu própria estava já meio anestesiada pela música pelo fumo pelo álcool pelas conversas pela minha própria solidão quem sabe se ter-me concentrado na sua pessoa melancólica e solitária ter começado a querer perceber ter começado a imaginar a inventar a supor acerca de si tantas coisas não foi a minha maneira de escapar também ao tédio quem sabe mas de repente suspeitei que talvez você e a rapariga se conhecessem se tivessem conhecido um dia há anos talvez há meses e que os olhares com que se olhavam um ao outro podiam estar carregados de memórias de recordações de palavras e de gestos de sofrimento ou de desejo ainda de lembranças de viagens por países longínquos eu não sabia era só uma suspeita eventualmente só imaginação minha pois embora eu já o tivesse descoberto ali no bar várias vezes tarde noite adiantada sempre só sempre calado sem falar com ninguém nem fazer por isso melancólico sempre de copo de whisky na frente e de charuto na mão eu tinha-o visto de facto mas de si não sabia nada por isso enquanto imaginava eu me acautelava a não acreditar excessivamente na história que ia inventando e em que você e ela eram antigos amantes que o cansaço de uma longa relação ou um acontecimento ou desentendimento fundamental que acabara por se intrometer na evolução do amor tinha separado e agora cada um recordava se lembrava e pensava no outro com uma ternura antiga ou talvez com ressentimento ou pena ou raiva mas eram apenas hipóteses uma maneira para mim de ir encadeando com alguma lógica uns nos outros os acontecimentos que poderiam perfeitamente ter tido lugar e devo confessar tenho de dizer claramente que nem você nem ela me pareciam desadequados ao papel que a minha fantasia o meu devaneio vos atribuíra vos fazia desempenhar.


Mas não eu não devia estar enganada porque outras coisas se puseram a acontecer o rapaz que acompanhava a rapariga a dado momento parece ter-se dado conta de que ela estava distraída das palavras dele e ficou meio calado fez uma pausa de que ela não teve tempo de dar-se conta de tal modo estava embrenhada noutros pensamentos noutra ficção noutra história e depois seguiu o olhar dela e descobriu-o a si no canto do bar na meia obscuridade da sua solidão e então ela deu-se conta de que tinha sido apanhada e ficou embaraçada e ele o rapaz de cerveja na mão ia falando parecia irritado colérico e ela deixou de estar à vontade e parecia que lhe estava a explicar qualquer coisa mas ele o rapaz de cerveja na mão não deixava de lhe responder não parecia satisfeito nem convencido e continuava a falar e então a dado momento ela olhou para ele com firmeza disse qualquer coisa que eu não podia ouvir e saiu disparada na direcção da saída o rapaz de cerveja na mão hesitou ficou surpreendido via-se que não estava a gostar nada do que se estava a passar fosse lá o que fosse e acabou por pousar o copo no balcão do bar e por ir à procura dela entretanto você que se dera conta de tudo sem que um músculo sequer do seu rosto se tivesse movido você então levou calmamente à boca o copo de whisky e sorriu ligeiramente com ironia com um arzinho de vitória e eu fiquei mais intrigada mais convencida de que você e a rapariga se conheciam e tinham sido amantes e intrigada curiosa perguntei-me se a rapariga e o rapaz voltariam ao bar mas imaginei que também podia acontecer ela aparecer sozinha e sentar-se ao seu lado outra hipótese que me passou pela cabeça foi ver o rapaz aparecer sozinho irado e dirigir-se à sua mesa e então eu via-o pedir-lhe explicações ou que ele o insultava e a cena o conflito podia acabar ao murro mas não nada disso aconteceu e eu desiludida com tanta passividade da parte deles e da sua perguntei-me se você que era o único personagem da minha história que ainda não se tinha ido embora o meu protagonista na realidade ia enfim tomar uma atitude fazer qualquer coisa que me permitisse corroborar o que eu tinha imaginado ou adivinhado qualquer coisa fosse o que fosse em vez de estar apenas ali sentado a olhar a pensar a beber a fumar a observar o que se ia passando à sua volta.

Eles não voltaram você deve ter percebido que a noite não tinha já nada a oferecer-lhe nada que fosse melhor do que o que já lhe tinha dado o espectáculo portanto tornara-se monótono e meia hora depois de eles terem desaparecido eu que continuava com o olhar concentrado em si nas suas expressões nos seus moimentos nos seus gestos vi-o levantar-se devagar e tranquilamente calmamente sem pressa nem irritação ir abrindo caminho por entre os miúdos e as miúdas sorrindo às vezes aqui e ali pondo às vezes a mão no ombro ou nas costas de uma rapariga ou de um rapaz que não o tinha visto e pedindo desculpa por isso e então a dado momento você e o enigma da sua vida desapareceram do meu campo de visão.



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