Thursday, November 23, 2006

Você

Um dia você e eu morreremos e de nós não ficará sequer a sombra de um gesto. De que serviu você passear-se com ares dominadores pelo corredores da universidade, como se fosse o chefe de qualquer coisa de imperecível, como se fosse o herói de uma guerra de conquista? Eu olhava-o pelo canto dos olhos e a morte vinha já ao seu encontro, mas você ignorava-o. Eu próprio observava-o do lugar da minha morte e por isso podia sorrir da sua vaidade, dessa aparência de imortalidade com que você preenchia o pressentimento do nada que ameaçava a sua vida. Você e a sua geração nunca entenderam, nunca entenderão. Devia escrever-lhe uma carta a avisá-lo do perigo que corre, de que está a perder o tempo, de que é impossível substituir o que tem de acontecer pela cegueira e a ilusão da eternidade? Mas quem era eu, pobre mortal como você, para dar-lhe lições e ensinar-lhe o que a idade ainda não tinha podido fazer-lhe compreender? Fui à minha vida, comecei a ignorar a sua existência, desinteressado definitivamente das tentativas que você não cessava de fazer para me enredar nas teias de aranha da sua visão do mundo absurda.


Santa Barbara, 8 de Setembro de 1992

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