Sunday, November 19, 2006

Você não sabe

Como o tempo passa. Há quantas semanas não a via? Cheguei aqui, desprevenido, para a minha hora de café e um cigarro e deparei consigo ao balcão do restaurante. Não teve férias? Já voltou porque as aulas começam em breve? Tinha entendido que em Setembro estaria no Arizona. Ora aí está como a gente se engana. Não, não esperava encontrá-la, já me tinha esquecido de si. E de qualquer modo não sei que dizer-lhe. Deu-me tanto prazer vê-la. Sorri tão espontaneamente que você, que ignora a minha vida, não pode ter entendido a importância da minha alegria. Sentei-me aqui fora, você está lá dentro, mal a vejo por causa dos reflexos dos vidros. Um tema de reflexão inesperado para a minha tarde. E no entanto, eu sei, daqui a pouco vou-me embora e nem sequer lhe terei dito que gostei de a ver.

Como me irrita esta rapariga faladora que nas minhas costas se assemelha a uma grafonola. A tarde está bonita: sol, um pouco de vento vindo do mar, certa paz. E eu próprio não estou mal de todo, embora tenha dormido de mais. Você não sabe o que é a gente habituar-se, com o passar dos anos, a não esperar nada do dia. Impomo-nos deveres, escrevemos artigos e estudos literários, tudo coisas destinadas a apodrecer, ignoradas, nas caves das bibliotecas. Nem uma palavra ficará, quanto mais um verso. E apesar de tudo continuamos, não desistimos de ir construindo o nosso destino. Passar o tempo, dirão os deuses, olhando-nos lá de cima. Fim de século, fim da nossa civilização. Ou só intervalo e um dia a máquina a vapor recomeçará a fungar seriamente? Todas as horas perdidas para o amor. A nossa miséria não tem limites. O nosso conformismo é surpreendente. Ou andamos distraídos? Que porcaria a vida. Sala de espera do encontro com a plenitude que nunca terá lugar. Digo-lhe isto a si porque não a conheço, limitámo-nos a sorrir um ao outro. Devia convidá-la a ir comigo ao cinema um dia destes. Pensei nisso. Mas se diante de si, a sós consigo, não encontro palavras que dizer-lhe? E se me aborreço e você se aborrece? O melhor é esquecer, não pensar mais no assunto. De qualquer modo você engordará, eu continuarei a envelhecer, tudo isto são preliminares de uma história sem sentido. Que escritor a sério perderia tempo a escrevê-la? Boa tarde, deixe-me acabar o meu cigarro e depois vou-me embora.


Santa Barbara, 4 de Setembro de 1992

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