Saturday, November 04, 2006

perhaps

eu não sabia onde tu moravas e combinámos encontrar-nos no centro da cidade. quando apareceste, atrasada, andava eu de um lado para o outro na calçada, nervoso. não te via há quanto tempo? os dias então custavam tanto a passar. pareciam semanas. quando te vi aparecer na rua à saída do metro o meu coração deu um salto. vinhas vestida de preto, parecias uma coruja, e estavas mais magra. fomos para um café e tu olhavas para mim de maneira estranha, como se eu fosse outra pessoa ou tu outra pessoa. fomos buscar os cafés-com-leite e conversámos de maneira indecisa, eu não sabia o que dizer nem por onde começar, estava meio perdido. não sabia nada da tua vida há três ou quatro semanas, devia ser por isso. peguei-te nas mãos, acariciei-as, beijei-as, tu não protestaste e continuavas a olhar para mim de maneira estranha, a pensar eu não sabia em quê. estavas a comparar-me com alguém que tinhas conhecido entretanto? era o que acabavas de descobrir sobre o teu corpo e sobre o amor na cama com outro homem que te obrigava a olhar para mim com olhos diferentes? devia ser isso. não estavas à vontade, talvez te sentisses mal ao pé de mim, provavelmente sentias-te culpada por me ter traído e mentido e custava-te olhar-me nos olhos. disse-te que tinha saudades tuas e que não tinha muito sentido do meu ponto de vista estarmos separados. tu não dizias que não, mas também não dizias que sim. não sei quanto tempo ficámos ali, alheados já das pessoas à nossa volta. saímos do café e caminhámos um pouco na rua. beijei-te, pus a mão no teu ombro e tu disseste agora já não vivemos juntos não podes fazer isso. mas eu fiz. eu não sabia onde tu moravas, perguntei-te, mas tu deste uma resposta vaga. já não sei se apanhámos o metro juntos ou se eu parti para um lado e tu para o outro.

lembro-me desse reencontro porque a nossa vida depois disso se transformou numa viagem constantemente interrompida, com saídas inesperadas em apeadeiros, em aeroportos, em cafés, em ruas, em casas, em desertos que eu não conhecia. e ora eras tu que desaparecias ora era eu. lembro-me de que uma vez, nessa época em que vivi sozinho, fui a casa à hora do almoço e tu estavas lá, tinhas ido buscar roupa. estavas de novo vestida de preto e achei-te muito magra, o rosto ossudo e com olheiras. abraçámo-nos, beijámo-nos, eu meti a mão pelas tuas pernas acima. mas havia uns operários a pôr a banheira nova na casa de banho e não fomos mais longe, nem cheguei a perceber se tu querias ou não. creio que não querias. de qualquer modo não eras a mesma pessoa e já nesse momento olhavas para mim como se tivesses encontrado um desconhecido, como se eu te fosse estranho. mais tarde vim a perceber tudo o que se passara, a tua magreza e o teu olhar de louca.


posso falar nestas coisas agora com alguma tranquilidade porque passou o tempo e tu morreste, nunca mais nos veremos. hoje pela primeira vez levantei-me bem disposto, estava um belo dia de sol, apetecia-me sair de casa e fazer coisas. sem me dar conta pus-me a cantar perhaps perhaps perhaps e deu-me vontade de rir porque me lembrava das parvoíces daquela série divertida da bbc sobre casais e relações amorosas. as recordações que eu tinha de ti estavam gravadas na minha memória com uma minúcia e intensidade cruéis. e doía-me muito não ter sido capaz de te conhecer nem capaz de te obrigar a aceitar que existias para além da tua imaginação. oito anos depois entendo enfim que nunca deixaste de ser uma estranha para mim e uma estranha para ti própria. vivi contigo, dormi contigo, viajei contigo, tive saudades tuas muitas vezes. foi uma maneira enganadora de passar o tempo. a partir de certo momento deixaste de ser uma pessoa com carácter definido, transformaste-te num cata-ventos à mercê das tentações mais ingénuas. já o tinhas sido antes de me conheceres e eu não te tinha curado dessa doença. todo o meu esforço para te ajudar a ser uma pessoa falhou. agora já nada posso fazer porque tu morreste e quem morreu não tem cura. fica-me o remorso, a dor, o arrependimento, o sentimento de culpa.

a noite caiu. estou só. num país distante. bebo um copo de vinho. como foi possível tamanha perdição, tamanha mentira? os dois primeiros anos das nossas relações foram bons e menos bons, eu recordo-me sobretudo de que foram bons, tu ainda sabias sorrir, ainda sabias esperar, ainda sabias pensar. havia muitas coisas a dizer, a entender, a corrigir, eu sei, porque o amor não é nunca aquilo que a nossa imaginação espera. mas eu acreditava que teria a paciência e a sabedoria e a paixão suficientes para ir desbravando o caminho e a floresta, construindo pouco a pouco a casa. nunca imaginei que ao primeiro aceno do exterior tu abandonasses o que ainda mal tinha começado e me deixasses só. arrependeste-te, voltaste de novo para mim. aparentemente. agora posso dizer que desde que te escapaste da nossa relação pela primeira vez nunca mais foste capaz de perceber ou de decidir que pessoa eras ou querias ser. andaste para cá e para lá, escondeste-te de ti mesma, sofreste, erraste, fizeste-me sofrer a mim e a outras pessoas. e para quê? para nada. as minhas mãos estão vazias, lembrar-me de ti faz-me detestar-te, faz-me afastar para longe as recordações que me deixaste. não te sou nada, nunca me foste nada, nem sequer enquanto trouxeste na barriga um filho meu. quando o amor se aproximava excessivamente de ti, tu assustavas-te e fugias. eu considerava-me uma pessoa inteligente, capaz de compreender a vida que estava a viver e que tinha escolhido. tenho de reconhecer que durante anos vivi numa nuvem de fumo negro, ignorante, incapaz de ver o que me estava a acontecer, o que estava a fazer. demorou, mas entendi enfim que tu quando desapareceste a primeira vez nunca mais voltaste. nem ficaste nem voltaste, perdeste-te no caminho. para sempre. agora posso dizer, tenho de dizer que em vez de teres tido a coragem de querer compreender o que fizeste e o que te aconteceu, preferiste morrer. desapareceste. deixando-me sem recordações e sem ter a quem acusar, de quem me queixar, com quem falar, com quem sonhar. por isso ao fim da tarde bebo vinho e proíbo-me a entrada nos terrenos ingratos da memória, que guardou o que não devia ter guardado, que friamente fixou como numa fotografia o que foi acontecendo sem nunca me ter ajudado a entender o sentido do que acontecia.

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