Friday, November 17, 2006

Pensava em ti

Havia uma rapariga sentada ao balcão do café, era tão bela. Mas não tinha muita importância porque eu pensava em ti. Na rua passavam estranhas raparigas vestidas de preto, saia curta, sorrisos largos, meu deus, que belas que elas eram. Mas eu pensava em ti. Nada me perturbava o bastante, não me magoava a impossibilidade de possuir. Em qualquer parte na cidade, eu não sabia onde, estavas tu e eu amava-te, pensava em ti. Não devia, eu sei. Era cedo de mais, talvez. E no entanto eu cedia ao perigo de te amar, de esperar de ti coisas insensatas. Sentia-me feliz porque tu existias, era uma sensação curiosa, há mil anos que não me acontecia nada parecido. Os teus cabelos, o teu rosto, os teus olhos que às vezes me olhavam. Pensava em ti, não conseguia esquecer-te. Davam-me pontapés na vida alguns cretinos e eu ria-me deles, das complicações da existência e do tempo que me obrigavam a perder escrevendo parvoíces. A tua existência, a memória de algumas palavras que me tinhas dito, a tua maneira de me olhar antes de falar : posso fazer uma pergunta? posso dizer uma coisa? E dizias, eu ouvia-te e não acreditava, quase não acreditava que pudesses ser tu, que fosse eu, que estivéssemos ali juntos a tecer os fios da camisola de forças do amor. Fora-se a tristeza, eu recuperava a inocência e a irresponsabilidade, deixava de pesar-me ter passado. O rosto da minha filha sorria-me na fotografia e eu, espontaneamente, sorria-lhe. Ouvia um disco e a música enchia-se de tensão e profundidade (e era o disco terrível do fim do amor, a melodia da morte). Quem não ama, não vê, não vive, é como se se passeasse à beira das montanhas e das florestas insensível à beleza esmagadora que as habita e se transmite ao nosso sangue quando as contemplamos. Como eu te amava, nessa sexta-feira à noite, como eu te amei. Apetecia-me ver-te e não te procurava, faltava-me a coragem para quebrar a promessa de só me encontrar contigo no dia seguinte. A um amor novo que nasce responde às vezes ainda, soluçando, um amor velho que se extingue. Eu sei. E também não me esquecia de que a morte existe.

Santa Barbara, 11 de Novembro de 1994

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