Monday, November 27, 2006

A paz















Estranhas manhãs, quando o sol brilhava
na relva do campus e, sentados, os estudantes
conversavam interminavelmente. Eu vinha
da penumbra do quarto, da solidão nocturna,
preocupado ainda com o meu futuro, como
se a adolescência se prolongasse e nunca mais
pudesse encontrar a plenitude, o descanso.
Entrava numa sala para fumadores e fumava,
à minha volta os estudantes fumavam também.
Tão límpidos os rostos, tão convictas as
palavras – e o tempo ia passando. Que
sabíamos uns dos outros? Que sabíamos
do futuro? Nada. Mas era como se
soubéssemos tudo ou não tivesse
importância o desconhecimento dos
mistérios. Ávida juventude, generosa e
fútil, mas em cada corpo, em cada coração
fermentavam já as catástrofes e as surpresas
dolorosas do futuro, as alegrias que não haviam
de durar, porque nada dura, nem o amor nem o ódio,
só a solidão. Ser olhado de novo, darem
pela minha presença, eis a novidade. Vinha do
deserto, vivera anos sem fim longe dos homens
e das mulheres, agora, no entanto, redescobria
o que é pertencer, ser de novo aquele que
pode inspirar o amor ou o ódio, aquele
para quem se abrem, discretos, os jovens
espíritos. Ó Outono diferente, intervalo
apenas
no tempo da escassez, pausa
inesperada no
carrossel monótono
da feira popular da
existência. Eu
olhava à minha volta, tranqui
lizava-me
a paz que habitava todas as coisas.


Rennes, 10 de Setembro de 1997

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