Sunday, November 26, 2006

O tempo

Viu o filme que fizeram do livro da Marguerite Duras? O Amante? Magnífico, não é verdade? Claro, não havia emoção carnal, as cenas de amor físico eram tratadas geometricamente, dividindo o corpo em partes, mostrando-o fragmentado nos gestos do desejo. Mas havia emoção: no olhar, no rosto do homem chinês, na garridice da rapariga. Estranha história de amor. Densa, trágica, ameaçadora – e no entanto era como se tudo o que acontecia fosse trivial e insignificante. Você não viu? Devia ver. Porque o seu rosto tem traços orientais, é por isso talvez que eu estou aqui a conversar consigo enquanto você vai estudando numa mesa perto da minha no café. Gostaria de dirigir-lhe a palavra, mas você é tão jovem. Podia amá-la, eu sei, profundamente, até à perdição. O que eu desejo, no entanto, é um amor tranquilo. Ora você é demasiado jovem, imagino eu, para contentar-se com um amor tranquilo. Por isso me calo, não esboço o mínimo gesto, não entrarei nunca na sua existência certamente curiosa e interessante. O tempo, é o tempo que decide de tudo. Há anos atrás, porém, enquanto era possível, eu não teria talvez olhado para si, você não é o género de rapariga cuja beleza surpreende imediatamente. Devia, agora, tomar uma atitude ousada e falar consigo? Por exemplo perguntar-lhe se esteve no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, se foi lá que comprou essa t-shirt preta com as letras brancas. Foi? Talvez. Eu também estive no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, há bastante tempo, há dois ou três anos, quem sabe se poderíamos conversar acerca disso durante um instante? Não, não conversaremos. Não quero – não posso correr o risco de uma decepção. O sol avança, a tarde vai morrendo devagar, fico aqui sentado a olhar para si de vez em quando e daqui a pouco, como ontem, vou-me embora enfim.


Santa Barbara, 1992

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