Sunday, November 12, 2006

a casa transforma-se

O lugar de habitação não nos é dado com a casa. A casa não é a casa quando dela estão ausentes as provas do ser. É preciso construir, preencher o espaço com coisas que tenham sentido. Não bastam os banais móveis já invisíveis ao olhar, incómodos na sua presença de ausentes indesejados.

Porque a casa facilmente se transforma na prisão do ser nós saímos à procura da luz do dia. Talvez na variedade caótica dos objectos e dos rostos brilhe fugazmente a recordação do ser, a manifestação da existência daquilo que insuspeitamente existe. Grande alegria, então, pode nascer do encontro com aquilo a que chamamos a nossa realidade. O espírito, tendo entrevisto o objecto do desejo, começa a imaginar a casa, o lugar de habitação, o sítio conveniente da morte.

A aventura contada assim parece indicar que é fácil ao homem sair de casa e encontrar-se com a vida. Ilusão, certamente, como sempre acontece quando reunimos os fragmentos de uma história na síntese artificial que os resume e tenta condensar. Não conviria, porém, começar a imaginar a aventura da existência como uma façanha excepcional do herói. Não há heróis nem heroísmo, apesar da resistência se impor às vezes à nossa admiração na capacidade de lutar e na teimosia, na esperança inabalável, na convicção indestrutível. O próprio ser, as migalhas do ser que intuímos na existência do que existe e cruza o nosso caminho, são às vezes um excesso indesejável. E desiludidos ou cansados preferimos refugiar-nos na caverna escura da casa que não é a casa mas apenas o túmulo do exilado da vida, lugar onde ele pode esconder a vergonha e a falta de coragem.

Naquele Verão as esplanadas dos cafés enchiam-se de gente, turistas aparentes da vida. Mas a simplicidade e a normalidade desses destinos que nos eram, nos seus mistérios, inacessíveis, impunham o respeito. E apetecia-nos rir dos poetas literatos que se imaginavam actores importantes de uma tragédia grandiosa. A dor, às vezes, ama-se a si própria na sua insignificância. É contra a pose que o poeta que não quer ser poeta luta, esforçando-se por ocupar na complexidade do mundo um lugar discreto. Do lugar ou no lugar discreto, modestamente, ele começa a entender a pouca importância da tragédia da existência e sorri com serenidade ao que se opõe à sua procura do ser.


Santa Barbara, 9 de Setembro de 1994

No comments: