Sunday, November 19, 2006

Não querer saber

Noyé dans la nuit sourde
et dans la fuite du bonheur


Rimbaud , "Les déserts de l'amour"



A cada um as suas trevas,
o seu silêncio.
O seu degredo.
A cada um a sua razão.
Vêem-nos
de fora, que sabem da nossa
vida?
Falam de nós? Nada
sabem da história das nossas
relações
com o sentido. Motivos?
A cada um o mistério do motivo.
Existem as palavras, com elas
falamos. Mas dizemos o quê?

As palavras nada sabem do
destino,
nem da dor, nem da
alegria. Nem da natureza do
amor
e do abandono. Nós
sabemos porque somos nós
que sentimos. Não sabemos o
suficiente para poder explicar,
é certo. Mas isso não quer dizer
que inventámos tudo. E porque
havíamos de explicar? O ponto de
vista alheio
sobre a nossa existência.
A opinião
que eles têm sobre nós.
Pensem o que
quiserem, interpretem
como
lhes parecer melhor. Eles que
sabem?
Presunção, arrogância. Ninguém
sabe nada, nós não sabemos nada.
O sentido parece
revelar-se
e sempre se esconde.
Só quem
viveu longamente longe das palavras
chegou a conhecer. Mas conheceu
o quê, exactamente? E alguém
suportou tempo bastante a
solidão para poder dizer que
finalmente aprendeu? E
aprendeu o quê? I
solamo-nos
à medida que os anos
passam.
Já não nos importa que não nos
dirijam a palavra, que não tenham
em consideração o nosso ponto
de vista. Na cabana da floresta,

a sós connosco mesmos,
olhamo-nos
às vezes no espelho, sem compaixão
pelo rosto que nos olha.
Sentimos apenas
que nos percorre o corpo um calafrio.


Santa Barbara, 26 de Agosto de 1992

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