Wednesday, November 01, 2006

No obscuro terreno

Não era o meu corpo que desejava o corpo das jovens raparigas. Era o espírito que aspirava à sua companhia. Dizia-se K., enquanto o tédio e a noite cresciam. Chegaria a entender um dia com clareza o seu destino? Não sabia. Deitar-me e que me acariciem o cabelo, que percorram o meu corpo com mãos preocupadas. E talvez o desejo acabasse por surgir e ele se levantasse na cama sobre o cotovelo, começasse a falar. Teria sido tocado. Mas não, não era o desejo, não era a carne que atormentava a sua solidão. K. queria apenas encontrar-se com alguém, uma pessoa. Com quem pudesse trocar olhares e palavras, alguns gestos, e seriam cúmplices na miséria do abandono. Depois venceriam o tempo e da escassez nasceriam os frutos abundantes e vermelhos de sumo denso. Em nós transportamos, no deserto do espírito, a semente escondida de todos os amores e de todos os ódios. No obscuro terreno do corpo vivem, como que adormecidos, os embriões das árvores de que se fará a floresta impenetrável. Mas os olhos das raparigas, repetia K. como se se lamentasse, mas os olhos das raparigas, que futuros cheios de plenitude escondem na sua profundidade?


Santa Barbara, 1 de Setembro de 1994

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