Friday, November 24, 2006

Não exactamente

Estavas tão bela na tua camisa branca.
Imaculada, irrompeste pela sala e eu
fiquei surpreendido com a tua aparição.
Se eu tivesse coração. Se eu, olhando-me
no espelho, me achasse digno de ser amado.
Contemplei-te de perto e tão à distância
que nem te recordei aquela tarde em que ficámos
a conversar no café enquanto o ar arrefecia. Fora
há tanto tempo (uma semana apenas, mas enfim).
Não, eu não tinha tempo para amar-te hoje,
deixei-te partir e esqueci-me de ti. Depois, sim,
depois observei-te no retrato pintado na memória.
Bela, altiva, talvez selvagem e talvez pura, embora
eu tenha algumas dúvidas sobre a tua capacidade
de amar. Se era ser admirada que querias, ficaste
contente, pois eu disse: estás tão bonita hoje. Hoje
e sempre, mas quis acentuar o instante privilegiado
que o tempo há-de comer como a terra come tudo,
depois de o ter feito frutificar. Pessimista,
eu? Não exactamente. Mas que faria do
teu corpo, da tua cara de areia lisa e limpa,
das tuas mãos e das tuas pernas elegantes?
Não, não era o momento indicado para eu entrar
em episódios de outras aventuras. O céu, iluminado
pelo pôr do sol é uma festa de cores lá ao fundo,
por detrás dos troncos das palmeiras e do telhado
das moradias. Automóveis vão circulando. Pouca
gente na rua e todos vão a algum lado. E eu,
aonde irei agora, se nem sequer posso pensar em ti?


Santa Barbara, 8 de Novembro de 1994

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