Wednesday, November 22, 2006

Nem sempre


A luz da sóbria objectividade é-nos recusada. Por vezes, porém, imaginamos contemplar a conclusão certa. Fomos nós, apesar das nossas insuperáveis imperfeições, quem soube construir o caminho, abrir a porta e as janelas que davam para o pátio florido. Sol que pouco durou. Mais distante sempre, mas escondida até então, acenava-nos já de longe com provocação a sombra vaga de outra verdade por descobrir. Não foi inútil o trabalho, nem a paciência, nem o esforço. Mas como contentar-se e ter descanso quando no horizonte se sucediam umas às outras as metas a alcançar? Alguns dos heróis sucumbiram na viagem, outros afogaram-se no rio. Alguns atiraram-se da ponte, outros suicidaram-se num quarto de hotel em Paris. Outros ainda enlouqueceram. A maioria preferiu a espuma do champanhe, os vagidos incoerentes do prazer sexual, o sono, a indolência de um destino a que só se sobrevive agonizando. Contemplar a verdade nem sempre traz a alegria que se esperava, muito menos a paz interior, menos ainda a convicção do dever cumprido ou a consolação da inteligência. Há tempestades que para sempre abalaram as entranhas do edifício no interior da própria terra, nossa mãe e sepultura. De tudo, aparentemente, triunfa o destino, a nossa capacidade de adaptação. Fomos jovens, deuses, divinas figuras poderosas. Um dia acordamos na casa vazia com as mãos abertas, delas escorreu tudo o que até então tinha sido acumulado. E a existência, os dias perdem sentido, nada pode já ajudar-nos a reviver. Conheci essa dor e todas as outras, catástrofes indescritíveis. Aprendi a ver, a dizer? Sim e não. Que ganhamos em rebelar-nos contra a morte do amor que parecia eterno em vez de aceitarmos em silêncio a imperfeição do mundo?


Paris, 21 de Maio de 1997

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