Thursday, November 23, 2006

Meditas ou esquivas

Se a luz, em vez de revelar
a sombra no seu abandono, cantasse
e com o Deus que não existe estivesse
do nosso lado quando perdemos o pé.

Estranhas invenções do meu espírito
que em vez de olhar nos olhos a solidão
e a morte que se aproxima, prefere
colaborar com os papagaios literários
da corte no espumar inútil e vaidoso
das palavras e da arte. Mas morrerás,

quer queiras, quer não. E não te
amará por teres revelado tanto talento
aquela que longe de ti, na cidade tão
apetecida, constrói o seu destino já
sem o teu amor, sem as tuas mãos.

Sozinho na casa deserta, habituado
no entanto à tua sorte sem remédio,
tu meditas ou esquivas, na tentativa
sem ilusões da arte, a mágoa, a
frustração - e sobretudo a pena.
Quem te amará por isso quando já
tiveres deixado a terra do amor?
Quem?



Santa Barbara, 1 de Outubro de 2003

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