Sunday, November 12, 2006

Em que colina

A amizade e um dia, quem sabe,
estaremos mais próximos. Dizias tu.
Sim, era importante. Sim, querias
contar comigo. Mas o coração
fica de fora, insistias tu. Eu
que podia responder? As
palavras que sentido tinham
para ti e que sentido tinham
para mim? Aprender o sentido
que nas frases se revela e sem
o trair avançar no conhecimento
de si mesmo, da vida e do amor.
Em que colina, no futuro,
nos havíamos de reencontrar?
Num banco de madeira ali
à nossa espera há tanto tempo.
E falaríamos de quê? E a
tua boca, se eu a beijasse,
diria o quê, depois do
beijo? O que os lábios
não tinham dito ou o que
os lábios já tinham deixado
entender? E eu estremecia
de prazer e de inquietação
ao imaginar o reencontro.
Iria com uma rosa na mão
ou com um malmequer que
acabava de colher no campo
de trigo e de papoilas?
Meu amor, eis as palavras
que tinham de ser ditas.
Mas eu hesitava ainda,
não podia pronunciá-las.
Conhecerei também essa
frustração, essa impossibilidade,
perguntava-me eu, receoso do
futuro. E a ideia da morte,
um sono profundo, acenava-me.

Santa Barbara, 16 de Outubro de 2004

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