Friday, November 17, 2006

Devagar

Tu esperavas por mim, o teu corpo esperava
por mim. Tinhas vindo devagar, entrando pela
minha vida com hesitação. Lá dentro lias
e eu, na sala, tranquilizava-me. O espírito
extasiava-se com a sua própria existência.
Os lieder de Schumann, a voz do amor, o
conhecimento da dor. Eu fumava, na sala,
e tu, no meu quarto, lá dentro, lias ou
escrevias no computador. Eu desejava-te,
certamente eu desejava-te, tinha dito: sim,
o teu corpo, mas devagar, não tenho pressa,
não nos precipitemos. Respondia à tua pergunta:
queres dormir comigo, realmente, é isso que tu
queres? Hoje? Devagar, disse eu, não tenho
pressa. E na sala, longe de ti e tão próximo,
ouvia as canções do amor e da dor de
Schumann. A noite de domingo avançava, ia
terminando. Tranquilamente eu observava a
minha vida e respirava fundo, meio inquieto.
Receava a alegria? Não sei. Receava passar para
o lado de lá do desejo? Não sei, como saber?



Santa Barbara, 11 de Dezembro de 1994

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