Friday, November 03, 2006

depois do cinema

saí do cinema em plena forma. apetecia-me dar murros nas pessoas e não era por mal. era apenas porque no filme toda a gente andava à porrada e era impossível fazer a transição para a monotonia do mundo real sem ter passado por essa tentação. surpreendeu-me a força do contágio. surpreendeu-me mesmo muito. mas acalmei-me logo, portei-me bem, fui saindo lentamente com os outros polícias e os outros mafiosos. a sala estava cheia. o ecrã era enorme, o som brutal, os actores geniais, sem uma falha. quando o dicaprio, barba curta, à porta, meio curvado para a frente, com as mãos apoiadas na parede ou nas ombreiras da porta ouve a rapariga dizer que a sua vulnerabilidade a tocou a gente emociona-se, consola-se. quando o vemos na cama com ela é o júbilo. não é só por ela ser boa e o scorcese nos deixar assistir ao que se passa de um ângulo de visão privilegiado: as pernas dela, as elegantes calcinhas pretas, aquela maneira de se dar, nem o dicaprio, que estava na cama com ela, os pôde contemplar e apreciar tão lentamente e tão bem como nós. mas há outra coisa excitante: ela, com aquele arzinho de meia tímida, com aquelas maneiras de rapariga honesta, afinal é a namorada do cabrão que é amigo do mafioso do jack nicholson e a gente fica contente por ela lhe pôr os cornos, como se dizia antigamente. reacções primárias, eu sei. mas não será em parte por isso que vamos ao cinema, para nos deixarmos ir na onda e sentir como se estivéssemos lá? grande scorcese. é preciso coragem para deixar balear o dicaprio dentro do elevador quando a porta se abre. a gente nem acredita. então o tipo desaparece assim do filme sem um aviso, quase sem a gente o ver morrer, quando já nos tínhamos identificado por razões complexas com ele? e depois morrem todos, os tiros não acabam. e depois aparece o tipo que parecia tão antipático no princípio mas que tinha sentido da honra e se foi embora para escapar à corrupção. aparece porque se tinha protegido do massacre, porque era esperto o suficiente para ter entendido que a única maneira de fazer justiça era esquecer as regras iniciais, o código teórico da profissão. e vinga-nos. impressionante como os actores americanos agem e falam: com firmeza, seguros de si, cada gesto imortalizado no mármore do celulóide. e a velocidade a que os acontecimentos se sucedem, as mudanças de plano, o vaivém entre os dois fios da intriga? espectacular. genial. a paciência que é precisa, além do saber e do talento, para ir construindo um filme assim, como um monumento, gesto a gesto, cena a cena, diálogo a diálogo, tiro a tiro. arte narrativa que só por isso me está, sempre me esteve vedada. pôr aqueles gajos todos a funcionar como funcionam exige autoridade, sensibilidade, conhecimento dos seres ditos humanos, um grande saber da arte de representar, muita maturidade. enfim, não bati em ninguém, mas saí para a rua revigorado e a perguntar-me porque não ia mais vezes ao cinema em vez de ficar em casa a ver dêvêdês na televisão. um filme não é bem um livro: a intimidade da casa, a solidão modificam tudo, restringem tudo. não se partilha a experiência. não é que eu não goste dessa privacidade. mas na sala cheia, com os actores enormes no ecrã, com o som mais agressivo do que na nossa monótona realidade, é outra coisa. em certo sentido é como ir de comboio na mesma carruagem com outros passageiros. ou de barco no mesmo cruzeiro. cria-se uma solidariedade silenciosa, secreta, frágil, inexplicável. se alguém atacasse a sala creio que reagíamos em grupo para defender aquele pedaço de chão e de tecto que nos unira. pois, tenho de ir mais vezes ao cinema. mas faz-se tanta porcaria que se corre o risco de no fim do filme estarmos ainda mais desanimados, com menos energia do que aquela que nos fez sair de casa. pois, eu sei, a chatice é essa, não se pode saber de antemão o que nos sai na rifa. mas não é assim também na vida real? quem vai para a descoberta nunca sabe o que vai descobrir.

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