Monday, November 27, 2006

Como um deus

Cada dia traz consigo o peso do dia anterior. Às vezes a sua ligeireza. Há, no entanto, aquilo a que se costuma chamar - sem pensar bem no que isso quer dizer – o fio condutor da intriga. É isso que conta, mesmo se às vezes é penoso caminhar na rua ao encontro do autocarro que não chega imediatamente, mesmo se às vezes é preciso esperar até às quatro da tarde para, sentado num café, fumar um cigarro e enfim repousar e suspirar de alívio. O tempo, então, apesar do peso ou da ligeireza dos sonhos e das preocupações, transforma-se. Como um deus, olhamos, jovens, à nossa volta os edifícios com a sua beleza antiga, as praças onde bate o sol, as raparigas que ao nosso lado não cessam de olhar, de sorrir, de conversar. Foi numa tarde assim que entendi por que razão, na obra de alguns poetas, a obsessão com as raparigas desconhecidas é tão intensa, aproximando-se dos limites do sofrimento interior insuportável. Os que os lêem não entendem a teimosia adolescente do poeta, os seus sonhos infantis, a sua doença. Mas é fácil, eu próprio, bruscamente, encontrei a explicação. E a explicação é: para o homem que não encontra a felicidade nem a paz no sucesso social, para quem sabe que tudo é convenção e luta insensata pelo poder ou pela glória, para aquele a quem foram reveladas as razões verdadeiras da existência, só o amor conta, só o amor interessa. Ora quem, além das jovens raparigas, sabe amar? Elas não duvidam, elas estremecem antes de esboçar o mais insignificante (na aparência) dos gestos, elas conhecem o mistério e o medo. Diante delas o poeta sente, ele também, crescer nos lugares obscuros do espírito o medo e a antevisão do prazer. O encontro verdadeiro inspira o receio e o terror, por isso os poetas e as jovens raparigas, almas infantis, podem entender-se quando se olham mutuamente às mesas dos cafés. Por isso o poeta e as raparigas, desejando escapar ao tédio mortal da existência, saem de casa e gastam as horas nas praças com esplanadas de cafés a olhar para lado nenhum, distraídos aparentemente da vida e das suas obrigações. Na realidade esperam pelo amor, querem que todos os dias sejam habitados pelo enigma e pela verdade. Só o encontro dos espíritos, às vezes através do encontro dos corpos, permite que habitemos, como o desejava o filósofo alemão, o mundo como se fôssemos, em permanência, poetas. O lugar de habitação, a casa, confundem-se com o lugar do amor, são uma e a mesma coisa. Nostálgico, o poeta, que conheceu e perdeu o amor, que teve e constantemente perdeu o lugar de habitação, senta-se à mesa do café à espera da renovação do milagre. E a noite vai caindo, mas os risos e as conversas fúteis das jovens raparigas enchem o ar de promessas, resgatam os anos mal vividos.


Rennes, 9 de Setembro de 1997

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