Thursday, November 02, 2006

a cidade


num gesto de arrogância calculada eu tinha-lhe escrito: de qualquer maneira tu não podes viver sem mim, acabarás por voltar aos meus braços e hás-de chorar pelos pecados que cometeste, pelas asneiras que fizeste. e por me teres feito sofrer e perder tempo à tua espera, por não teres sabido amar-me. tu tens pela cidade uma paixão que só se tem pelas pessoas, toma consciência disso e analisa as consequências dessa alucinação absurda. essa paixão exacerbada pela cidade é inseparável de mim e tu não o ignoras, tu sabes que não podes atravessar nenhuma rua, nem nenhuma praça, nem nenhuma ponte, seja dia ou seja noite, vás a pé ou vás de carro, sem seres obrigada a pensar em mim, em nós. podes estar com outro homem, a mim bem me importa, tu nem o vês, eu sei que se voltaste à cidade foi à procura de mim e dos restos do nosso amor para o qual não encontraste nunca substituição. e voltaste de lá frustrada, nem necessito de te perguntar, porque não encontraste aquilo que procuravas nas ruas e nas praças e nos restaurantes e nos parques da cidade. nem nunca encontrarás.


sem mim a cidade era outra cidade. com a minha ausência eu criava a nostalgia, o vazio, a imperfeição da experiência. tu não podias, nada podias contra isso, a memória é mais forte do que a vontade e do que a decisão, desilude-te, não percas tempo a lutar contra forças que não podes vencer. tentaste substituir-me por um boneco de palha, mas sê sincera, não deu resultado, não conseguiste enganar-te. sentiste a solidão, não compreendeste a tua insatisfação. mas o vazio que te cercava de todos os lados era assustador. quiseste esconder a frustração e sorriste para quem passava, para quem te via. de que te serviu? de nada. entendeste por fim que a cidade sem mim ao teu lado não existe, que é outra cidade, o fantasma de outra cidade. aprendeste-o à tua custa. aprendeste-o nas tuas viagens clandestinas à procura de não sabias o quê, aprendeste-o tentando trair-me sem nunca o conseguires, aprendeste-o querendo sem sucesso apropriar-te sozinha de uma cidade que não te pertence apenas a ti. nem nunca mais pertencerá.

essa cidade pertence-nos, é tua e minha, e tu acabarás por compreendê-lo um dia com suficiente clareza. entretanto ilude-te a pensar que sem mim a cidade é a mesma cidade. até podes ter o boneco de palha a guiar-te pelos vossos caminhos escondidos, mas por mais esforço que faças nunca conseguirás escapar à recordação de nós os dois nas nossas ruas. quantas vezes tentaste já fugir e libertar-te de mim para te apropriares sozinha daquilo que nos pertence aos dois? nunca conseguiste e também não vais conseguir agora. tu já o sabes e só continuas a farsa para não te dares por vencida, queres iludir-te, queres ganhar tempo. teimosa, caprichosa, burra. a cidade eras tu e era eu e eram os nossos lugares. não, nenhum de nós pode estar ausente se se quer sentir de novo o que se sentiu no tempo antigo, mete-te isso de uma vez por todas nessa cabeça tonta.

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