Monday, November 27, 2006

Bela cidade








Cidade de oiro da infância e da adolescência,
pelas tuas ruas luminosas passeei-me, melancólico.
Pátria de quem, agora? Na direcção de que
futuro caminham os teus apressados transeuntes?
O amor, esse mito incómodo que nos acompanhou
durante os anos do exílio, bate molemente as asas,
céptico e desiludido. O futuro a quem pertence?
Jovens raparigas e rapazes ocuparam os lugares
que um dia foram nossos. Acreditámos na eternidade
de todos os sentimentos? Mas ouvimos, enfim,
o eco das palavras que escreviam e declamavam
os sábios: nada, ninguém, pertence, tudo é de
empréstimo; e a terra que engolirá os ossos
e a cinza dos sonhos, indiferente espera por
nós, o pó. O sol brilha ainda, nas montras das
livrarias erguem-se os rostos e as vozes imortais.
Algazarra imensa, ó ilusão. Poetas amantes das
palavras e perdidos da vida sentam-se ainda nas
esplanadas dos cafés a meditar. Silhuetas pesadas
que ninguém vê. Quem tem destino, a quem é
concedida, senão aos inexistentes deuses, a
duração? Bela cidade de pedras brancas
sob o céu azul, nas tuas ruas passeei a
minha melancolia. Não estava triste, não
sofri, aprendia apenas, de novo, e mais
claramente, que tudo é vaidade, mentira,
que tudo é ficção. Dias absurdos, insensatez.
De sonho em sonho, adiamos o entendimento
da morte, o pavor do vazio, o terror do nada.

Lisboa, 1 de Fevereiro de 2003

No comments: