Monday, October 23, 2006

Viagem a Salamanca














quanto te devo perguntou ela. eu estava distraído a olhar para a montra de uma livraria uns livros de unamuno e não prestei atenção. ela repetiu devo-te quanto lembras-te? eu ouvi e disse não sei acho que não me deves nada. mas foste tu que pagaste o hotel e o jantar de ontem à noite disse ela. e tu pagaste a gasolina porque o carro é teu disse eu. está bem então disse ela. e desapareceu dentro de outra loja de roupa. eu fiquei cá fora a tirar fotografias às casas e a algumas pessoas que passavam tentando enquadrá-las de maneira a pôr em evidência formas cores linhas gestos atitudes a que o olhar normal utilitário não prestaria a devida atenção.


a maneira como se olha modifica tudo à nossa volta. concentremo-nos por exemplo numa janela. ou no pé de uma pessoa. ou nos seus olhos. se separamos a parte do todo e se além disso conseguirmos respeitar as leis básicas da harmonia talvez tenhamos tirado uma boa fotografia. a luz e as cores podem trabalhar-se depois no computador.

andei ali na rua de trás para diante e de diante para trás tirei uma péssima fotografia a um péssimo saxofonista que se sentara numa esquina e infestava o silêncio com os seus sons desagradáveis depois voltei à porta da loja para ver se ela ainda estava concentrada a ver roupa ou se já estava com ar de quem vai sair em breve e abandonar a busca. ela viu-me e começou a dirigir-se para a saída mas antes ainda parou para observar e tocar uma saia que lhe apareceu no caminho. e agora aonde vamos perguntei eu. se não te importas ainda há mais duas ou três lojas ali em cima que gostava de ver.

eu não me importava. a ideia da viagem fora dela. eu estava em casa a dormir era sexta-feira de manhã e inesperadamente ela tinha telefonado: vamos a salamanca. o que é que lhe dera? eu não a via há duas semanas e agora íamos a salamanca? está bem concordei eu vamos a salamanca. dormimos lá e voltamos amanhã. tudo bem disse eu e comecei e levantar-me fui tomar um duche e vesti-me. lembrei-me então de que ela tinha feito anos dois dias antes. e não pensei mais no assunto meti apenas as minhas coisas dentro de um saco e fiquei à espera que ela aparecesse. ela aquela que mandava nos meus dias que decidia quando e aonde íamos que tinha projectos obscuros para mim mas claros para ela e que decidira levar-me a passear para lhe fazer companhia. sentia-me um tanto confuso parecia-me que me estavam a tratar como se eu fosse um objecto um boneco sem vontade própria nem coisas pessoais a organizar ou a fazer como se eu fosse alguém sempre disponível porque sem objectivos na vida sem destino que merecesse respeito. mas não a via há duas semanas e viajar com ela compensava-me da sua longa ausência.

não sei o que é que ela fez nesse verão foram três meses e tal e no entanto pouco a vi. é verdade que eu próprio estive ausente em itália duas semanas e meia e que de vez em quando sem dizer nada me metia no comboio e ia até lisboa ficava lá uns dias em casa de uns amigos. ainda assim era estranho difícil de entender o seu comportamento. mas eu tenho bom feitio e ou sou tolerante ou sou peguiçoso ou estou-me nas tintas. não sei bem qual é a melhor explicação. compreendo aprendi a compreender e aceitar sem me questionar excessivamente todos os comportamentos todos os estados de espírito. das pessoas tudo se pode esperar já nada me surpreende.

e no entanto perguntei-me: terá deixado de me amar? já não tem prazer em estar em falar em jantar em andar em viajar em dormir comigo? porque no princípio ela aproveitava todas as oportunidades para fugir de casa dos pais fazia os trinta e tal quilómetros que a separavam de mim fosse dia ou noite e vinha jantar comigo dormir comigo passava comigo todo o tempo que lhe era possível e estava sempre a telefonar mesmo enquanto conduzia para a quinta onde morava.

agora não. agora passava bem sem me ver sem falar comigo sem dormir comigo. devia ter outras preocupações mas quais eu não conseguia adivinhar. invadira-a a depressão a melancolia o desespero o medo do futuro? cheguei a pensar que ela tinha um amante na vila onde vivia com os pais mas afastei a ideia. eu conhecia-a o suficiente e à sua ambição. nunca na vida ela se interessaria por alguém que vivesse naquela parvónia. não havia lá ninguém com classe com bom gosto com requinte suficiente para ela. aliás ela não queria viver em portugal e todos os seus projectos passavam por exilar-se noutro país mais civilizado mais moderno mais aristocrático mais rico com costumes e pessoas mais interessantes.

de momento eu era parte da realização do projecto. desde há uns cinco ou seis anos. mas tendo em conta que eu tinha o meu trabalho de investigador numa universidade para lá do oceano e que não contava voltar tão depressa para a europa devia admitir a possibilidade de me separar dela mais cedo ou mais tarde. quando ela se tivesse fartado de andar pela cidade a ver lojas de roupa de colares de móveis quando ela se fartasse de esperar que eu voltasse do laboratório onde passava os dias a observar os olhos das moscas e de outros insectos contribuindo dessa maneira para o progresso da ciência.


mas por ora estamos em salamanca e vamos voltar a portugal a meio da tarde. ontem e hoje ela andou de loja em loja a ver roupa depois fomos a um antiquário onde ela se deixou seduzir por um candeeiro por um baú de madeira por uma bacia por uma cómoda por não sei mais o quê e depois entrámos numa loja de bugigangas para a casa flores secas espelhos móveis cortinas tapetes coisas assim. eu às vezes entrava com ela e ela pedia-me para dar a minha opinião outras vezes ficava na rua a tirar fotografias aos edifícios e a algumas pessoas que iam passando e que me pareciam curiosas ou interessantes ou simplesmente banais.

depois ao fim da tarde ainda na véspera tínhamos ido ao hotel e descansámos um pouco ela mudou de roupa. tínhamos decidido jantar num restaurante ali perto que era caro tinha estilo e portanto devia ser bom. já não sei quem é que teve a ideia se foi ela ou se fui eu devemos ter sido os dois ela sempre gostou de bons restaurantes não perdia uma oportunidade de comer bem fosse comigo ou com outra pessoa. creio que como ela disse fui eu que paguei portanto terei sido eu a convidá-la porque ela tinha feito anos uns dias antes mas ficara com os pais pois a mãe evidentemente ficava doente se ela tivesse ido festejar os anos com outra pessoa.


recordo-me de que foi um excelente jantar a carne era boa o vinho excelente e sei que quem nos visse de fora outros clientes ou os criados que serviam à mesa por exemplo não deixaria de perceber que a nossa relação era sólida já antiga uma boa relação e que estávamos a festejar qualquer coisa. creio que depois de jantar tomámos um café na enorme e bela praça ali perto onde já tínhamos estado sentados à tarde a tomar chá. depois ela murchou como era costume a essa hora ficou com frio agarrou-se ao meu braço encostou-se ao meu corpo e fomos andando a pé para o hotel fomos deitar-nos. eu também tinha andado de um lado para o outro enquanto ela via as montras e entrava nas lojas e sem me dar conta tinha feito alguns quilómetros doíam-me um pouco os pés e as pernas.

estamos a almoçar num restaurante da grande praça e daqui a bocado metemo-nos no carro não tardará muito e voltamos a portugal. ela conduz eu não tenho carro cá na europa. às vezes alugo um mas desta vez não. e depois quando chegarmos a casa ela deixa-me no meu apartamento e segue para casa dos pais.

do meu sexto andar olha-se para a extensa planície que lá longe acaba por ir dar a espanha. vêem-se umas montanhas antes mas a distância é grande tudo é pouco nítido às vezes penso que é por ali que fica a vila e a quinta onde ela vive com os pais mas não sei pode ser apenas parvoíce minha obsessão uma maneira de sentir saudades dela. um dia quando nos separarmos creio que vendo o apartamento pois não me apetece nada sempre que vou à janela ou à varanda ter de pensar nela ser agredido pelo passado por recordações que me incomodam. porque esta relação cada vez se me torna mais incompreensível e ela uma pessoa misteriosa cada vez menos a pessoa que eu imaginava que ela era.


era uma criança quando a conheci. não tinha experiência nenhuma da vida e menos ainda do amor. separara-se por tédio do namorado da adolescência tivera uma vaga estranha aventura com um professor de liceu sofrera um desgosto com um don juan algarvio e depois apareci eu. se eu quisesse explicar por que razão estamos juntos não tinha grande coisa a dizer. vimo-nos uma semana num hotel das termas onde ambos estávamos de férias falámos um pouco no início depois todos os dias. combinámos reencontrar-nos na cidade onde ambos tínhamos estudado e onde eu vivo no verão. et voilà.

dois dias depois fui com ela a extremoz e a évora onde dormimos. a minha ternura por ela que me supreendia com a sua paixão ia aumentando. foi bom já não queríamos estar um sem o outro eu estava surpreendido com o que me estava a acontecer. quando apanhei o autocarro para regressar a casa porque ela continuava a viagem para o sul onde ia visitar uma prima ela deu-me diante de toda a gente um beijo tão bom tão verdadeiro que nunca mais me esqueci desse momento. hoje ainda tenho na memória a imagem dela no vestido branco a despedir-se de mim com a mão no ar enquanto o autocarro se afastava. por causa desse momento dessa despedida devo ter-lhe perdoado mais tarde muita coisa.

essa ternura sem manchas durou dois anos. depois não sei o que aconteceu passei a ter a impressão de viver com uma desconhecida a quem teriam feito uma lavagem ao cérebro que a transformou completamente. o que estamos aqui a fazer então? por que estou aqui a almoçar com ela antes de voltarmos à nossa velha cidade? não sei e talvez saiba.

sou muito paciente ou pouco exigente? às vezes sou pouco exigente contento-me com o que tenho e com o que me dão. vou esperando por dias melhores. tenho um carácter fraco não sou muito corajoso. ou então amo-a e não estou disposto a pôr os meus sentimentos em causa por ora. se a perdesse até as nossas discussões me fariam falta e havia de fazer-me falta ter de esperar por ela enquanto ela gastava horas em lojas de roupas e havia de fazer-me falta protestar quando a visse diante da televisão a ver programas de moda ou a querer aprender como se transforma uma casa velha e horrorosa numa casa moderna e agradável. por outras palavras: ainda não me apeteceu reflectir sobre a situação aceito-a como ela é e mais tarde logo se vê. acho que não vale a pena tomar decisões drásticas sem razões sérias para isso. podemos inclusivamente eganar-nos e fazer asneiras. é preferível portanto pensar que tudo se há-de resolver de uma maneira ou de outra naturalmente.



que isto não está bem não está. eu sei. é inegável ela irrita-me às vezes. acho que ela se tornou cínica e calculista nos últimos anos e tenho consciência disso. só não entendo a razão de tão profunda transformação. razões hereditárias biológicas? um amigo meu que é psicanalista explicou-me uma vez o que é a histeria falou-me da influência perigosa de uma mãe castradora na libido das raparigas mas eu não entendo dessas coisas ouvi-o distraído. o meu cepticismo é e sempre foi grande. não sei sequer se acredito que é ciência muito do que hoje se apresenta como ciência. quanto à verdade ao que nós chamamos ou cremos que é a verdade é preferível eu não dar a minha opinião. a minha especialidade são os olhos dos insectos. como são constituídos que forma e tamanho têm onde estão situados como se movem e reagindo a que estímulos ou necessidades até onde vêem se abarcam muito espaço lateralmente a relação entre o ver e outros fenómenos exteriores a sincronização ou relação entre o olhar e o comportamento do resto do corpo coisas assim pequeninas modestas.

ela está pronta. já viu mais umas lojas e agora podemos ir embora. entramos no carro e noto-lhe o mesmo ar decidido que já tinha observado quando ela me telefonou e me foi buscar a casa. como se tudo isto esta viagem estes dois dias tivessem obedecido a um projecto claro com intenções bem definidas. mas escapa-me qualquer coisa há por aqui um mistério uma obscuridade uma desordem uma decisão que não consigo penetrar. ou estarei hoje com vontade de inventar histórias? o carro já rola passamos perto da ponte de pedra antiga vemos ao longe as torres das igrejas e dos palácios vamo-nos afastando.

estás contente gostaste de ter vindo a salamanca pergunta-me ela. eu sinto que não estou nada contente que me atormenta uma amargura inexplicável mas digo que sim que foi uma excelente ideia que salamanca é uma cidade de que sempre gostei até era capaz de vir viver para cá um dia mais tarde quem sabe.
não sei se ela me ouviu. tem os olhos concentrados na estrada não sorri parece embebida noutros pensamentos e é como se eu não estivesse ao seu lado como se eu não existisse. haverá já alguém entre nós a separar-nos e eu não o sei e ela não o quer confessar?

apeteceu-me bruscamente pedir-lhe que parasse o carro e que me deixasse em salamanca. eu voltava de comboio. devia dizer-lhe que queria estar só porque o comportamento dela as decisões dela as suas atitudes me deixavam muito inquieto estranhamente nervoso. queria falar-lhe do meu mal-estar da minha incapacidade de entender o que é que a move o que é que ela quer da vida e de mim que ideia foi essa de me trazer a salamanca como se leva uma criança ao circo ou ao cinema em que é que ela está a pensar enquanto conduz. mas não digo nada limito-me a olhá-la em silêncio fico a observar a fria determinação com que ela se concentra na estrada.


de repente invade-me uma inesperada angústia fico melancólico e de olhos perdidos no seu rosto imóvel frio determinado. já pressenti que nos tornámos estranhos um para o outro e que não há nada a fazer. esta viagem teve qualquer coisa de artificial serviu não sei para quê exactamente. ela deve saber mas não lhe pergunto nada. em breve partiremos cada um para seu lado sem o lamentar e reprimindo todas as recordações que acumulámos vivendo juntos. esqueceremos sem remorsos o que vivemos aquilo a que chamámos o amor. esqueceremos tudo o que demorou tanto tempo a construir. não há mais nada a ler o livro acabou. ficaremos com um ramo de flores que já secou nas mãos frias. o que nos fez viver já não servirá para nada gastou-se como se gasta o alcatrão das estradas com a passagem dos automóveis e dos caminhões. o nosso passado transformou-se num cadáver. antes que comece a apodrecer a cheirar mal vai ser preciso atirá-lo sem hesitação nem compaixão para o caixote do lixo. haverá outra solução? não sei mas talvez não haja. ela vai conduzindo sabe aonde vai não tenho de preocupar-me. eu penso na pobreza do nosso destino na inutilidade do amor e de tudo o que nos acontece mas não abro a boca reprimo as saudades futuras que hei-de ter deste momento porto-me muito bem. mais tarde logo se vê não vale a pena forçar o destino.

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