Sunday, October 15, 2006

nocturno

eu não tenho nada a dizer porque estou conformado com o meu destino. de que me serviria queixar-me? quem poderia consolar-me ou contribuir para modificar a minha existência? ninguém. não serve de nada a gente queixar-se porque só alguém que poderia beneficiar de uma relação connosco responderia ao nosso apelo. ora as probabilidades de essa pessoa ter alguma coisa a ver com o indivíduo que nós realmente somos, as possibilidades de esse estranho nos vir a interessar são incertas.

acho a vida tão apaixonante como absurda. se não acreditasse ainda no amor, na possibilidade de encontrar alguém que se interesse por mim, entenda o que eu sou, e me preste atenção, provavelmente suicidava-me. nada disto, o mundo, a sociedade, a nossa existência, tem muito sentido, a brevidade da vida humana é ridícula, uma ofensa à nossa inteligência e às nossas capacidades. mas se alguém me amar, eu mudo de opinião.

o sucesso profissional já não me diz nada: não tenho, nunca tive a ambição de ser o melhor na minha disciplina ou noutra. aliás estou-me nas tintas para o prestígio social, a maior parte das pessoas que triunfaram na vida são frequentemente uma fraude. eu sou pela existência tranquila, longe dos holofotes da fama, essa ilusão infantil. tendo em conta os dez ou quinze anos de vida que me restam, para quê preocupar-me com mundanidades? não me aborreçam.

em vez de estar aqui a aborrecer-me, a triturar-me, sozinho em casa à uma e meia da manhã, porque não mando vir um táxi e não vou às putas? algumas são belas, simpáticas, têm educação universitária. o que é que as torna menos competentes em questões afectivas e sexuais do que as meninas a quem pagamos o jantar, por exemplo? as putas pelo menos dão-nos alguma garantia de saberem o que estão a fazer, provavelmente fazem-no bem. e o preço é fixo. além disso, se nos iludem, é por breves instantes, pois o pragmatismo renasce depressa das cinzas da falsa afectividade. não tenho experiência nestas questões porque nunca frequentei esse universo. começo a perguntar-me se não fiz mal

as putas, antes de nos terem seguros, de nos apanharem no quarto da pensão, são encantadoras. sabem seduzir-nos, são excepcionalmente amáveis. prometem-nos tudo. e a gente sente-se bem, gratificado, vingado das humilhações da vida - ou pelo menos do dia. uma vez que receberam “o presentinho”, porém, ficam apressadas. se são profissionais com um mínimo de consideração pela profissão e pelo cliente, fazem o que têm a fazer relativamente bem e disfarçam a pressa. mas para o meu gosto são de facto em geral apressadas e mecânicas. tenha-se em conta, porém, que a minha experiência é reduzida.

é uma profissão ingrata e difícil, reconheço. mas incomoda-me que uma vez que nos apanham despidos elas revelem tão pouco interesse pela pessoa que nós somos. olham de lado em vez de nos olhar nos olhos. querem manipular-nos o corpo e mandar nele em vez de nos deixarem acariciar os seus ventres lisos e bonitos, as suas coxas serenas, os seus rabos bem feitos. parecem, por vezes, bruscamente, meninas envergonhadas. a dignidade perdida, afinal não se perdeu.

a técnica da manipulação metódica e rápida do meu corpo pelas mãos aparentemente experientes delas no meu caso não funciona. eu não aceito ser um objecto sexual. recuso-me - e como sou eu que pago, tenho esse direito. não estou disposto a abdicar da minha condição de sujeito nem sequer na relação mercantil com uma mulher. se me decidir a prosseguir nesta via, a adquirir mais experiência, a cultivar-me neste ramo, estou seguro de que acabarei por ser eu a dominá-las com suave firmeza e a controlar inteiramente a situação. juro que não as deixarei nunca manipular-me como se fosse um boneco de borracha que deve inchar e explodir quando elas querem.

um amigo meu, que não tem paciência para aturar mulheres no quotidiano, vai às putas duas vezes por semana. imagino que, sendo ele um cliente regular, elas lhe fazem um desconto. essa solução permite-lhe, por ora, dedicar mais tempo à sua profissão. como ele diz: problemas sentimentais é coisa que não tenho, felizmente; há coisas mais sérias com que ocupar-se e eu sou uma pessoa muito ocupada. infelizmente nem toda a gente é tão sã, tão cínica ou tão inteligente como ele.

no meio destas reflexões tive de fazer uma viagem profissional a londres. é uma cidade que conheço um pouco, por lá ter vivido. se fosse rico, aliás, escolheria londres como lugar fixo de residência. em londres há cultura, a vida tem qualidade: livrarias, museus, teatro, cinema, música, o que de melhor se faz no universo acaba mais tarde ou mais cedo por estar em londres - se é que não nasceu lá. eu conheci uma vez uma menina no aeroporto, ela deu-me dois dedos de conversa até aparecer um rapaz de cabeça rapada a ir ao seu encontro e a abraçá-la. achei-o gordo de mais para ela, que era magrinha, e feio de mais também: com a cabeçorra rapada, ele parecia um sargento alemão. ela, em contrapartida, era uma florzinha de estufa, bonitinha, delicada. vi-a entrar no carro dele, que era velho, com as malas. beijaram-se longamente já sentados, abraçaram-se, acariciaram-se, eu estava espantado com o fervor daquela paixão despropositada entre a besta e a bela. mas entretanto chegou o meu táxi e esqueci-me deles, fui à minha vida.

voltei a encontrá-los mais tarde, por pura coincidência, em chelsea, numa farmácia perto da casa onde então vivia. eles não me viram nem podiam reconhecer-me. sim, eu tinha vagamente trocado umas palavras com a rapariga no aeroporto antes de chegar o sedutor skinhead com as suas botas pesadas e o seu ar abrutalhado; mas ela, tão ocupada a deixar-se lambuzar pelas patorras do romeu camponês, não me viu nem certamente se lembrava de mim. comprei as aspirinas que tinha vindo procurar e deixei-os a escolher preservativos numa estante da farmácia. fui-me embora desgostoso, no entanto. cheio de inveja talvez. desiludido com o atentado às leis da harmonia que aqueles dois pareciam cometer sem qualquer pudor. provavelmente o tipo era um lambedor competentíssimo de clítoris, esse órgão feminino tão intrigante que transforma as relações amorosas numa troca de serviços pouco elegante entre dois masturbadores. mas achei-me vilão e vulgar por pensar, sem razões evidentes para isso, aquilo que tinha pensado. não gostava do tipo, pronto, mas não era necessário atribuir-lhe a ele e à sua companheira vícios e incapacidades so disgusting.

o acaso, porém, colocou-os uma vez mais no meu caminho uma tarde em notting hill. eu devia partir no dia seguinte para estocolmo, onde tinha uma conferência profissional importante sobre anti-depressivos. entrei num café que costumava frequentar para tomar chá e comer qualquer coisa. ora lá estavam eles de novo de olhos nos olhos, a acariciar-se mutuamente as mãos. ele tinha olhos de carneiro, ela parecia uma nossa senhora de cera a derreter-se de embevecimento. achei demais e, chocado, desiludido, irritado, saí imediatamente do café, sem ter tomado nada. depois disso nunca mais os vi.

sentado no aeroporto à espera da hora do meu voo, interroguei-me: qual será a diferença real, científica, entre uma puta que se assume como tal e uma rapariga que se liga a um homem por interesse? serão os sentimentos da segunda mais sinceros e profundos do que os da primeira? serão a solidariedade, a amizade, a lealdade, elementos fundamentais e distintivos na relação de um homem com uma rapariga decente, isto é, com uma rapariga que não é puta?

quando voltei a lisboa tinha uma mensagem à minha espera no meu telefone. ela, que eu esquecera e pensava ter-me esquecido, lembrara-se de mim. queria saber se eu estava bom, há tanto tempo que não dava notícias. eu não tinha novidades a dar a ninguém, mas achei piada ela ter telefonado. sentia-se sozinha? precisava de me pedir algum favor? estava cansado, fui tomar um duche e deitei-me. eram seis da tarde e se acordasse a tempo contava sair para jantar.

sonhei com ela. sonho estúpido: enrolada em colares de pedras azuis e vermelhas do afeganistão, a sua nudez deixava-se entrever pelos intervalos das pérolas de feitios diversos. estava deitada numa poltrona de coiro beije e sorria-me com concupiscência. eu estava sentado no chão aos seus pés mas não entendia por que diabo ela se estava a comportar como uma odalisca oriental. à volta dos olhos as sombras azuis salpicadas de pó dourado davam-lhe um ar vulgar. um cão enorme subia o focinho na direcção das suas pernas magras onde se notavam as linhas dos ossos. eu estava de copo de whisky na mão a olhar para ela e não dizia nada, mas a dado momento comecei a rir às gargalhadas, sabe-se lá porquê. ela não gostou, mostrou-me má cara, franziu a testa, fez um gesto de enfado com a mão direita. a esquerda servia-lhe de apoio ao queixo. o cão, surpreendido pelas minhas gargalhadas histéricas, começou a ladrar, mas não tirava os olhos da dona.

acordei a transpirar, cheio de sede, eram umas oito e vinte. levantei-me, pensei em telefonar-lhe. há quantos meses não a via? mas tinha a certeza de querer vê-la? fui-me vestindo e tentando perceber o que é que me apetecia fazer. decidi finalmente telefonar-lhe, embora sentisse em mim, quando peguei no telefone, um vago receio, inexplicável.

ela veio jantar comigo. camisa de seda cinzenta com florinhas aberta no cimo, viam-se-lhe os seios redondos e carnudos. contei-lhe que sonhara com ela, ela riu-se. tu andas assim na rua a mostrar as mamas a quem quer que passa, perguntei eu, irónico. não sejas parvo, disse ela, eu trazia um casaco por cima da camisa. e só o tiro porque estou contigo, tu tens direito a ver as minhas maminhas, para ti não são novidade.

ela a falar e eu e lembrar-me de que ela ia assim para o liceu onde dava aulas e onde havia um tipo que a beijava na boca quando a apanhava no gabinete dele, que a apalpava e lhe metia as mãos pelas pernas acima. ela mesma me tinha contado esses episódios eróticos do fim do dia, quando o liceu ficava quase vazio e ela e o outro se sentiam à vontade para se pôr na marmelada. duas vezes até tinham feito amor no gabinete dele, correndo alguns riscos. e uma vez, mais entusiasmados, tinham saído do liceu logo a seguir às aulas e tinham passado o resto da tarde a foder num hotel próximo. ela não tinha pejo em me contar a sua vida mais íntima. as convenções sociais nunca a tinham impedido de viver a sua vida como lhe apetecia. ela era o exemplo da mulher moderna, o tipo de mulher capaz de pegar no telefone e chamar um amigo só porque tinha vontade de ir para a cama com ele. tinha vários amigos com quem o fazia. e que sabiam que ela o fazia com outros homens. com ela não se falava de amor nem do futuro, não se faziam projectos. ela dava e recebia - e depois ia à vida dela. se algum dos homens com quem ela se dava se mostrava ciumento, começava a tornar-se exigente, a criticava, dava mostras de querer modificar a relação, ela cortava com ele, nunca mais lhe telefonava, não respondia aos seus telefonemas

quereria dormir comigo, fora com essa intenção que me telefonara? eu não sabia ainda, as relações com ela não eram tão previsíveis nem tão lineares como poderia pensar-se. eu próprio não sabia se me apetecia dormir com ela, aliás, tinha de pensar no assunto ou de esperar um pouco para saber o que sentia.

concentrei-me no jantar. o vinho tinto era agradável. o bife e as batatas fritas impecáveis. e eu ia vendo as suas maminhas balançar-se ligeiramente dentro do soutien quando ela se ria. foi excelente.

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