Saturday, October 21, 2006

a hiena

e quando chegava a noite o terror que como um veneno se introduzira em nós a meio da tarde tornava-se por momentos insuportável depois de jantar e já durante o jantar abatia-se sobre nós como uma hiena faminta ávida de carne humana ávida de sangue e nós saíamos de casa para ir ao café porque ficar em casa na companhia da fera era arriscado era sexta-feira ou quinta ou outro dia não fazia muita diferença mas na esplanada daquele café certas manhãs certas tardes certas noites parecia que só se reuniam os esquecidos os tristes os abandonados aqueles que não tinham a quem amar nem quem os amasse a quem olhar nem quem os visse a quem falar nem quem os ouvisse e por isso vinham refugiar-se ali eram quatro ou cinco às vezes menos raramente mais um gordo de barba um rapaz judeu que lia livros de ficção científica dois estudantes melancólicos um magro e outro grandão e depois pessoas que vinham só às vezes e outras que era a primeira vez ou pelo menos não eram clientes habituais do café. e era sobretudo uma solidão um abandono masculino. os rapazes os homens bebiam café com leite em copos de papel fumavam falavam. era deprimente e eu comecei a detestar pessoas que tinham o ar de vagabundos não me apatecia nada ir sentar-me ao pé deles.

lá dentro os estudantes escreviam ou liam nos computadores ou nos cadernos e nos livros e havia raparigas que em geral não pareciam tão afectadas pela solidão mas a verdade é que todos todas passavam ali horas e o café muitas vezes à tarde à noite estava cheio. as raparigas eram as que mais facilmente riam brincavam às vezes sentavam-se à mesma mesa em grupo e pareciam satisfeitas com a vida. mas nem todas riam ou conversavam pois algumas estavam concentradas num trabalho ou numa leitura qualquer quase não levantavam os olhos do que estavam a fazer.

não era sempre a mesma coisa podia variar mas era assim certos dias e nunca se sabia quando e então parecia que vivíamos no deserto. nesses dias a mesma paisagem desolada o mesmo tédio a mesma tristeza ou monotonia que pareciam sem solução por todo o lado. nós fugíamos da esplanada tentávamos o starbuck por exemplo ou a borders mas nada mudava era sempre a mesma desolação parecia que vivíamos numa cidade desertada. os mesmos rostos de rapazes de homens sós meio fechados às vezes três ou quatro gatos pingados e as raparigas tinham desaparecido quase todas creio que era sempre pior nas sextas-feiras e nos sábados.


depois de tomar café e de fumar dois cigarros e ler um pouco e escrever num caderno não havia outra solução senão regressar a casa onde nos esperava para nos atacar impiedosamente a hiena que na realidade nunca nos perdera de vista nos seguira se escondera se tornara invisível mas que assim que entrávamos em casa nos mostrava logo os dentes afiados cruéis e o olhar de desejo já sem disfarce já sem receio nem pudor. e a gente tentava distraí-la olhando um programa de televisão ouvindo um disco lendo um livro mas a hiena não renunciava a tornar-se notada a ir espetando as suas garras na carne indefesa merda de país dizíamos nós raivosamente o que é que eu estou aqui a fazer como é que eu vim aqui parar nunca gostei desta maneira de viver desta maneira de pensar tenho pena dos infelizes pobres escravos do materialismo que nasceram aqui e não têm oportunidade de ir viver para outro sítio.

muitas vezes afastava a hiena de mim escrevendo contando histórias sei lá tentando fazer alguma coisa do tempo pois gastar usar todas as horas apenas a ler a dormir a trabalhar de qualquer modo não bastava era impossível não era solução evidentemente. meses e anos antes mas fora há quanto tempo alguém me fizera companhia e os dias o desencanto o tédio eram mais suportáveis mas o meu carácter provavelmente difícil de suportar a minha incapacidade de me relacionar com as pessoas ou sobretudo de lhes prestar a atenção que elas mereciam ou exigiam deixavam-me ciclicamente só. e então eu sentia a punição e à medida que passavam os anos e se aprofundava o conhecimento do país e daquilo que é a vida tornava-se mais difícil enganar-me distrair-me a mim mesmo suportar o fardo. uma noite há anos nos primeiros anos da solidão eu chorara diante do computador mas não fora um choro de vencido não não nada disso eu tivera bruscamente um arrepio comovente de orgulho de mim mesmo porque apesar de adversidades várias da força de alguns inimigos daquilo que tinha já perdido ou recusado eu não sucumbira antes pelo contrário tinha cumprido as minhas obrigações e não desiludira quem tivera confiança em mim fizera progredir as coisas de que me ocupava.

escrever escrever para adormecer a hiena era um vício absurdo devia ser sobretudo uma maneira de acreditar ou fazer de conta que acreditava que assim a solidão seria vencida. anos perdidos. dias e noites perdidos. para nada ou para não se sabia se sabe o quê. então uma noite pensei que nunca oferecera flores às mulheres que amara que também me esquecera de lhes oferecer pulseiras anéis perfumes roupa e que esse esquecimento ou distracção ou egoísmo devia ter desempenhado um papel importante na minha caminhada para a solidão detestável.

não era verdade porém eu sempre ofereci e gostei de comprar prendas coisas que via nas lojas para as pessoas às vezes até as enviava pelo correio o que acontecia era que eu não gostava nada nunca gostei de me comportar de acordo com os calendários oficiais das prendas e dos sentimentos e das obrigações não eu dou quando me apetece e detesto ser manipulado pelos comerciantes pela publicidade pelas datas pela tradição pelas invenções modernas de dias fixos para comemorações para despesas para aparentes loucuras e distracções.

não é impossível que essa minha aversão às convenções me tenha transformado numa pessoa menos sociável menos amável menos humana como se na realidade eu tivesse mesmo quando estava acompanhado gasto de maneira egoísta e estúpida tempo de mais a ocupar-me de pôr a minha vida em ordem escrevendo poemas aprendendo música gastando as horas com porcarias na internet.

e lá dentro na sala eu lembrava-me disso agora com remorsos e nostalgia alguém me chamava para ir ver um filme ou assistir a qualquer coisa na televisão e eu dizia já vou já vou e depois não ia e às vezes até reagia com palavras tortas e protestava com ar meio zangado que queria que me deixassem em paz e se era uma mulher que me tinha chamado que tinha querido a minha companhia só nos encontrávamos só nos víamos de novo na cama quando já tarde eu me ia deitar.

queria quis estar em paz que me deixassem em paz e tive a paz que desejava deixaram-me em paz. agora tinha remorsos de ter sido tão egoísta de ter estado tão ausente da vida dos sentimentos dos outros e não sabia que fazer da paz mortal em que vivia até infantil inventava histórias de hienas para tornar mais interessante através dessa metáfora banal de imagens conhecidas de técnicas já aperfeiçoadas por outros e portanto com pouca capacidade de surpreender de revelar de iluminar uma história que não tinha qualquer ou grande interesse. e se não era para tornar a tragédia o desajuste interessante devia ser uma maneira de os tentar vencer através daquilo que algumas pessoas designam por arte através do fazer do agir ó grande ilusão.

só que eu não conseguia enganar-me a mim mesmo e enquanto me ocupava enquanto fazia enquanto criava começava ou nunca deixava de duvidar do subterfúgio eu sabia e não podia esquecer eu compreendia eu sabia que nada nos salvará da insignificância nem da amargura das ausências nem da dor dos abandonos nem das consequêcias de haver à nossa espera à espera daqueles que amamos a morte.

imaginamos que sim que podemos escapar ao destino comum e pode até ser por idealismo por educação humanista que em vez de renunciar nos levantamos todos os dias continuamos o ritual aprendido respeitamos as virtudes elogiadas premiadas. mas nem por isso se vence o que não poderá nunca ser vencido o nada o niente o rien du tout que são as nossas existências de duração miserável e no entanto de duração suficiente e mais do que suficiente quando o sofrimento em vez da satisfação a dor em vez da alegria a derrota em vez da esperança são o nosso pão de todos os dias ou quase quotidiano.


apesar da antiga intensa juvenil selvagem vontade de viver vão-nos aniquilando as contrariedades as doenças as decepções os erros as paixões o desaparecimento dos sonhos e das pessoas dos projectos e o extenuar-se da esperança. nada do que acontece acontece sem consequências e se não for cedo é tarde que nos damos conta disso.

eu dizia a mim mesmo que a solidão actual me doía mas que não devia esquecer-me de que fora eu mesmo a procurá-la a aspirar a ela e que para a atingir a merecer tratara muitas vezes aqueles que estavam na minha vida como se eles tivessem obrigação de suportar o abandono o isolamento que eu lhe impunha que tantas vezes talvez cruelmente mas sem me dar conta disso eu lhes impusera.

eu pensara ou imaginara com desenvoltura distraidamente que eles os que eu amava e que me amavam não se podiam queixar que não podiam estar descontentes. não havia razão eu estava perto na mesma casa no outro quarto lá dentro a fazer outra coisa qualquer coisa a perseguir não sei o quê que nunca terminava ficava sempre matéria para investigar ou corrigir ou recomeçar no dia seguinte. e ausentando-me em vez de estar a prestar-lhe atenção a fazer-lhe a companhia que os amantes os filhos e os pais se fazem uns aos outros eu acabara por traçar o meu destino tinha sido punido com a realização do que desejara com aquilo a que aspirara.

o nosso destino está muito mais nas nossas mãos do que nós pensamos. mas aprendemos muito tarde às vezes não sei se sempre tarde de mais o poder que temos o poder que tivemos. e infantilmente com arrogância com ignorância esbanjamos desperdiçámos todas as ocasiões.

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