Friday, September 29, 2006

Promiscuidade


O segredo é a alma do negócio e de todas as conspirações. Os rostos, no entanto, deixavam às vezes transparecer uma estranha inquietação. As mãos, nervosas, tremiam ligeiramente. Os olhares esquivavam-se. Amar o próprio como a si mesmo, evidentemente. Mas se possível, ó América do liberalismo selvagem, passar-lhe uma rasteira com um sorriso nos dentes. A simpatia não impede os assassinatos simbólicos. E o simbolismo não impede que o assassinado se transforme em cadáver real. Os anos que eu passei a aprender. Circular entre as pessoas, cumprimentá-las (como está? bem muito obrigado), sabendo que na sombra a calúnia e a inveja, às vezes, fermentava nas borras da amargura íntima. Não nascemos todos iguais. Não perseguimos com a mesma intensidade e fervor a verdade e a salvação. Ou antes: uns perseguem o seu destino; outros perseguem o destino alheio. O ódio não é aceitável. Nem o racismo. Nem o sexismo. Teoricamente. Claro que não é aceitável. Mas então sejamos claros: nem mascarados de boas maneiras, de solidariedade aparente. Mistérios da vida americana. A caldeira fervilhava, lá dentro não se sabia que corpos triturados, que órgãos decepados se agitavam. Eu saía da zona do perigo e ia sentar-me na esplanada de um café a descansar. Tentava entender. Mas não havia nada a entender para além dos jogos da ambição e da promiscuidade da luta pela vida, selvagem, impiedosa.


S. B. 28 Out. 1994

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