Friday, September 15, 2006

contradição?



à força de recearmos que determinado acontecimento aconteça, somos nós que acabamos por provocar o seu acontecimento. depois queixamo-nos de ter acontecido o que nunca teria acontecido se nós não tivéssemos dado tanta importância ao seu acontecimento, se nós não tivéssemos imaginado com tanta ansiedade que podia acontecer o que dizemos que não queríamos que acontecesse.

somos nós que criamos oss nossos adversários e inimigos, que os tiramos do anonimato e lhes damos o privilégio da fama. sem a nossa interferência, sem a publicidade que lhes fizemos, ninguém teria dado pela sua existência.

sem o altar onde os colocamos, os amantes das nossas mulheres nunca lhes teriam despertado uma atenção prolongada. mas nós, ao privilegiá-los com um olhar nosso, pomos fim à sua insignificância. e as nossas mulheres, revelando grande consideração pelo nosso ponto de vista, dão-nos a honra de nos enganar com eles. também é um método relativamente subtil (não muito, não muito) de nos livrarmos de uma mulher que já não suportamos.

uma vez acontecido o que receávamos que acontecesse, ficamos descansados: as previsões confirmaram-se, o que só prova a nossa perspicácia; e desapareceu finalmente esse receio, que nos estragava os dias, de que viesse a acontecer o que agora já aconteceu.

a melhor maneira de fazer com que uma relação não funcione é a gente imaginar desde o princípio que os obstáculos são muitos, que o seu sucesso é improvável. e em seguida proteger-se do desastre de maneira inteligente, iniciando assim que possível outra relação, que será mantida em banho maria clandestinamente por uns tempos (podem ser anos). depois é só ir mudando de uma relação para a outra até compreender finalmente que nenhuma das relações tinha possibilidades de sobreviver. o nosso "partner", aliás, nunca provou claramente que nos amava e depois acusava-nos de leviandade, de estarmos distantes. parecia estar à espera da primeira oportunidade para se desfazer de nós. era portanto natural, para nos precavermos de sermos abandonadas/os, que nos fôssemos embora por nossa própria iniciativa, de livre vontade. ficámos finalmente sós ou aterrámos na relação errada, mas a nós ninguém nos abandona, nós damos o salto primeiro assim que nos parece que a nossa situação está ameaçada.

No comments: