Wednesday, September 27, 2006

A amada

Pensar na amada é imaginar os gestos mais simples:
apertá-la contra o peito, acariciar-lhe os cabelos,
beijá-la no rosto e no pescoço; e a emoção
confere a cada movimento o peso e a gravidade
do nascimento e da morte. Através da presença
da amada elimina-se a solidão; e o próprio
espírito, como que alegrando-se na sua tristeza,
põe sobre todas as coisas que existem um olhar
benevolente. Longe o ódio e o ressentimento,
longe o pensar estéril que anda à volta do
objecto obsessivo sem encontrar uma solução
que conduza de novo aos caminhos da vida.
O rosto da amada ocupa o corpo daquele
que sente a sua ausência. Ele olha para
as raparigas que passam ao longe e às vezes,
alucinado, crê ver nelas o perfil da ausente.
A amada, porém, que sabe do amor que
suscita, das preocupações que por sua causa
atormentam às vezes o inseguro amador?
A amada saberá o que é o amor?
Interrogando-se, aquele que espera inquieta-se:
e se errei, se foi um momento de equívoco
o que nos reuniu durante um breve instante
à beira do precipício da solidão? E não
tem respostas, ninguém pode oferecer-lhe a
paz de espírito, ninguém o pode consolar. Só
a amada, desejada, detém agora todos os poderes.


Santa Barbara, 3 de Novembro de 1994

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