Friday, September 29, 2006

Alguém



Passa a hora como passam na rua as bicicletas, como passa o calor e chega o frio da noite. Cada dia é uma existência inteira. Esquecemos o instante, imaginamos o eterno. Nessa confusão vivemos. Quem teria energia para sobreviver se com o dia lhe fosse dado o ano? Há a hora da chegada, a hora da partida. Juntar-se aos outros, depois abandoná-los. Desaparecem as pessoas, refugiam-se na casa. Uma música romântica tenta atenuar o rigor do momento, prolongar a ilusão da duração. Inútil. O coração não se deixa enganar, o seu próprio relógio preside à ordem de todos os outros relógios. Fim de tarde sem encanto, apesar de a luz se derramar suavemente nos objectos. Passam os automóveis com os faróis já acesos, silhuetas brancas de transeuntes silenciosos. Alguém, no café ao ar livre, tenta ainda ler. Não há eternidade, porém, nada que permaneça para além do breve instante da presença fugaz. Eu próprio, ele próprio, o fugitivo, o exilado, o insatisfeito, torna-se invisível. E não tem projectos. Levanta-se, parte ao encontro do nada.


Santa Barbara, 30 de Outubro de 1994

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