nada.niente
""True singing is a different breath, about nothing". (R. M. Rilke)
Sunday, May 19, 2013
Tuesday, May 14, 2013
Monday, May 13, 2013
Sunday, May 12, 2013
Saturday, May 11, 2013
Um animal de pele branca, imaculada
Mas então,
disse ela, o que é que tu queres, diz-me lá de maneira clara, é reatar uma
relação que já morreu ou esquecê-la? Eu ri-me e disse: não sejas tão
positivista, o que é começar, o que é reatar, o que é acabar? Já tentaste saber
onde começa e onde acaba um raio de luz? Experimenta e compreenderás melhor o
que eu digo, a minha maneira de ver as coisas.
Falávamos ao
telefone, às vezes horas, ela do outro lado do Atlântico, cheia de atenção e
paciência, eu deste lado, sempre meio perdido no tempo. Então eu disse: nem as
pessoas nem as relações são objectos sólidos inalteráveis, tudo está sempre em
movimento, por isso não tem sentido dizer que uma relação acabou porque as
relações só acabam quando as pessoas envolvidas nela estão todas mortas.
Ela não estava
de acordo comigo e queria forçar-me a responder à sua pergunta, então eu cedi
um pouco e expliquei: não há, humanamente falando, qualquer hipótese de
reatamento, eu nada farei para que isso aconteça, seria esquecer que não
consegui resolver os problemas do amor enquanto eles ainda tinham solução. Além
disso, acrescentei eu, quando tenho saudades dela é uma coisa puramente literária,
romantismo portanto, é como ter saudades de um morto, porque ela não existe,
essa pessoa de que falamos mudou de máscara, já está noutra peça de teatro,
aliás só existiu dois anos e depois desapareceu numa gruta, numa caverna, não
sei onde, nunca mais a consegui encontrar e bem a procurei por todo o lado.
Sim, tenho
remorsos de não ter estado mais presente eu próprio quando era necessário,
teria sido bom para a nossa relação, mas devia haver uma razão para eu não a
suportar, para eu me ausentar e me irritar e ficar mesmo irascível e sem
paciência para as coisas que lhe interessavam a ela, para as interrupções dela
quando eu estava a trabalhar, para as manias dela, para o seu snobismo ingénuo,
para o autoritarismo dela. Tenho pena, sinto-me muito infeliz quando penso no
desastre que foi a nossa relação, mas não creio que a culpa tenha sido só minha,
ela nunca estava completamente onde parecia que estava, era uma criança mimada
além disso, e tinha problemas de saúde complicados por vezes, asseguro-te que
me sinto muito frustrado com o que aconteceu, mas tu como podes saber o que se
passou entre nós, ninguém podia saber, nem eu mesmo sabia exactamente o que se
estava a passar e nos havia de separar para sempre. Eu próprio quis essa
separação e dizia-o, quando me vir livre de ti, quando desapareceres da minha
vista, mas agora sinto-me estúpido, não entendo como pude comportar-me assim,
como pude ser tão impaciente, estou perplexo.
E apesar de
tudo o que já disse e do que sei e do que tu sabes, perguntas-me se eu ainda
penso na possibilidade de a trazer outra vez para ao pé de mim, e eu explico tu
falas assim porque ignoras que quando ela se foi embora já nem nos podíamos ver
um ao outro, não que houvesse ódio, não sei explicar, era desinteresse, e ela,
sempre prudente, sempre insegura ou vingativa, tinha já encontro marcado noutro
sítio com outra pessoa para resolver o problema do seu futuro. Portanto, mesmo
que eu quisesse que ela voltasse, de que é que me servia? De nada, ela nunca
teve tempo para reflectir, várias vezes tomou decisões precipitadas, sai de uma
relação e vai logo de cabeça atirar-se para outra, é como se a tivessem
ofendido ou desprezado ou repudiado, o que é absurdo, se ela tivesse capacidade
de esperar, se ela não estivesse cheia de terrores inexplicáveis na cabeça, se
ela deixasse as coisas amadurecer, uma vez pelo menos, talvez ficasse mais
tranquila, talvez acabasse por ser feliz.
Ao que eu digo
tu respondes que eu estou a falar do que não sei, não tenho provas de nada, e
mesmo que fosse verdade, dizes tu, mesmo se for verdade o que tu dizes, dormir
com outro homem ou ir ao encontro de outro homem não pode ser o motivo da
separação. As pessoas separam-se entre si sem interferência alheia e porque as
relações já não funcionam, porque há um vazio a preencher, e não é por ter
aparecido ou existir outra pessoa que isso acontece, de modo nenhum, é porque
tudo acabou e já não há interesse em continuar. E se de facto surge alguém na
história é porque é mais fácil, para sair depressa de uma relação, ir meter-se
na cama de outra pessoa por uns momentos, e ninguém tem nada com isso, não
sejas machista.
Eu dei uma
gargalhada, não pude evitar, com que então as outras pessoas, as que deviam
estar de fora ou a gente pensava que estavam de fora, não desempenham papel
nenhum na nossa vida amorosa, tudo se passa só a dois, por favor, olha bem para
o que se passa à tua volta, observa, e depois diz-me, dá-me conta dos
resultados das tuas observações.
Positivista,
repeti eu, és positivista e pronto, pois primeiro relações que estejam a
funcionar de maneira perfeita é coisa que não existe, nem os melhores motores
funcionam de maneira perfeita, nada no mundo funciona de maneira perfeita, o
que é a perfeição, explica-me lá para ver se eu entendo, o que é uma relação
perfeita entre duas pessoas, entre dois amantes por exemplo, isso, esse
conceito, muda com as pessoas e com os continentes e com as situações, com os
dias e com as noites.
Acredita,
nenhuma relação é sólida como as pedras parece que são sólidas, como o ferro da
ponte sobre o Tejo parece que é sólido, as relações são como a personalidade,
como a ideia errada, fantasista, que nós temos daquilo a que chamamos o eu,
daquilo de que falamos quando falamos das pessoas que somos. Na realidade nós e
os outros não somos nada, niente, rien du tout, não, não somos blocos de sentido
aglomerado, cimentado, enclausurado numa espécie de tijolo, desilude-te de vez,
isso a que chamamos o eu, de que podemos dizer aquilo é um eu, é uma treta, uma
ilusão, um produto comercial, sentimental, um produto, a commodity para consumo rápido. Nas relações entre as pessoas e
naquilo que designamos por eu existem falhas, muitas falhas, muitos espaços
vazios, imensas, inúmeras zonas obscuras, instáveis, impossíveis de isolar, de
entender, de definir, é por isso que é sempre possível alguém introduzir-se num
espaço que parecia reservado, ou privado e seguro, só de duas pessoas ou de uma
pessoa, e estragar tudo, criar a desordem na nossa vida e o caos no nosso
universo.
E além disso,
continuei eu, o que é o vazio, o que é estar vazio, se eu te entendo bem então
tenho de protestar outra vez e dizer que isso não pode servir de desculpa nem
de explicação para a infidelidade ou para a ruptura, pois quem é que não tem em
si espaços vazios, enormes, profundos espaços por preencher, eu próprio, certas
noites, tento preencher esses espaços incómodos com um copo de vinho, por
exemplo, e não me perguntes por que razão o vinho ajuda a preencher esses
espaços vazios porque eu não te sei explicar, fico sentado numa cadeira, por
exemplo, depois de ter bebido ou enquanto vou bebendo, e o vazio em mim
tornou-se menos incómodo. Mas eu não sou o género de pessoa para abusar dessas
soluções artificiais a fim de preencher os vazios que ocupam espaço dentro de
nós sem realmente o ocuparem. Eu sei o que disse, que o vazio ocupa espaço, foi
mesmo isso que tu ouviste, e de facto se não ocupasse espaço não podíamos
referir-nos a ele como qualquer coisa que pode ser preenchida, para onde se
pode ir e querer estar.
Ouve ainda o
que eu digo, estava a pensar, se eu, em vez de preencher os meus espaços vazios
com a ajuda de um copo de vinho ou de um whisky, tentasse preenchê-los ou
escapar ao incómodo que eles me causam indo deitar-me na cama com alguém que
goste de mim, ou lendo um livro, ou indo procurar uma rapariga a quem pagaria
para se deitar comigo, ou conduzindo na auto-estrada sem parar durante toda a
noite, o que é que isso provava acerca da minha relação comigo mesmo e com as
outras pessoas, com o mundo e sobretudo com ela, com aquela que eu amava? O que
é que isso provava senão que o vazio em nós é impossível de definir, de
caracterizar, de identificar, e que ao agir, ao fazer fosse o que fosse, ao ir
para a cama com uma desconhecida a quem pagara para estar comigo, ao deitar-me
com alguém que me amasse ou que apenas tivesse tido vontade de mim, ao pintar
um quadro, ao tirar uma fotografia, ao querer perder-me nos labirintos das
auto-estradas quase desertas à noite, eu estava apenas a provar a existência do
incómodo que o vazio provocava em mim?
A minha
tentativa, talvez ingénua, talvez desesperada, de escapar a esse incómodo e a
mim mesmo fazendo qualquer coisa que me afastasse da melancolia e do tédio e da
solidão sem sentido pensas que poderia ter sido provocada pela imperfeição do
amor que alguém tem ou devia ter por mim? Tu achas que pode? Há tanta coisa que
me faz falta, que sempre me fez falta, algumas pessoas, por exemplo, e a pessoa
que nunca encontrei, que nunca conheci, e que teria transformado a minha vida
noutra vida, no entanto não me recordo de alguma vez a ter culpado a ela,
àquela que eu amei e de quem esperava tanto e com quem dormia, àquela de quem
tu falas porque ela é tua amiga, pela minha insatisfação existencial, pelo meu
desajuste com a vida. Mas tu achas que eu devia ter percebido por que razão ela
nunca estava contente, nunca estava totalmente feliz, por que razão ela fez as
asneiras que fez, umas atrás das outras, repetidamente, como uma tonta ou uma
desesperada, e achas que era obrigação minha protegê-la dos seus próprios erros,
e que além disso eu devia ter evitado ou resolvido os problemas que não eram
provocados por mim, aqueles que nasciam da sua instabilidade e imaturidade, das
confusões que desorganizavam a sua cabeça. É possível que tenhas razão, é
verdade que se podia esperar tudo isso de mim, mas pelos vistos eu não estive à
altura da situação, lamento muito, e tu sabes que paguei um preço elevado por
essa incapacidade, por esse erro.
Na tua opinião,
já o disseste várias vezes, se ela sentia um vazio, ou vários vazios, sei lá,
na sua vida, eu tinha responsabilidades nisso - porque era eu que vivia com ela,
era a mim que ela amava. Dizes que eu tinha obrigação de ter visto e não vi, de
ter percebido e não me importei. Por eu não me ter dado conta dos problemas que
a atormentavam, ou por ter sido incapaz de fazer alguma coisa para modificar a
situação, a minha relação com ela acabou por se deteriorar, é o que tu dizes. Eu
entendo, eu percebo o que tu dizes e não protesto, está bem, sou culpado, não
soube, não pude resolver os problemas que eram gerados pela sua personalidade,
pela sua história familiar particular, até pela relação em que estávamos os
dois. Mas insisto, repito, que se concluis acusando-me a mim de ser a razão, o
responsável, a causa, com o meu comportamento, desses vazios, se eles existiram,
e da ruptura e da infidelidade, da infelicidade, do abandono, do desastre, de
tudo, de tudo, eu não posso estar de acordo. Eu não sou Deus.
Tu então
voltaste à carga, disseste que eu ainda não te tinha dado uma resposta clara à
pergunta, queres que ela volte ou queres que ela desapareça definitivamente da
tua vida, disseste que eu estava a querer escapar-me com subterfúgios, e eu
ri-me e disse essa tonta essa tola que eu amei como queres que eu a queira de
novo a estragar-me, a envenenar-me a vida, ela era mesmo tola, mesmo tonta, e
agora nem sequer sei onde ela está, nem o que está a fazer, creio que decidiu
ajuizadamente ou desesperadamente ligar, antes que seja tarde de mais, o amor a
alguns interesses comerciais e a uma paixão insaciável por uma cidade onde
vivemos juntos durante algum tempo mas onde eu já não vivo. Projectos esses que
já há algum tempo lhe queimavam as meninges, lhe perturbavam o cérebro de
criança instável, a levaram a várias decisões aberrantes. Mas estou a falar do
que não sei, eu sei lá onde ela está e com quem e a fazer o quê. Eu sei lá se
ela é feliz ou infeliz. Nem quero saber. A passagem dela pela minha vida pode
não ter acabado ainda porque eu lembro-me de tudo o que aconteceu,
estupidamente até me lembro de quase tudo em pormenor, mas garanto-te que
hei-de fazer o que puder para eliminar definitivamente da minha vida as
consequências nefastas desse erro.
É verdade que posso amá-la, eu sei, há partes de mim que a amam ainda,
mas essas partes de mim são as que gostam de lidar com o que não se resolveu,
não se entende, não teve ainda ou não terá nunca solução, são zonas de mim
mesmo, do que eu sei do mapa de mim mesmo, que me escapam ou tentam escapar à
minha lucidez, por isso eu oiço o que elas dizem, anoto o que lá se passa,
sinto o que lá se sente na medida do possível, mas não ligo muita importância,
pois o meu raciocínio, a razão, impedem-me de continuar a alimentar ambições e
projectos de vida que já percebi serem impossíveis e insensatos. Não me apetece
sofrer mais do que o inevitável, entendes? O que não impede que eu sofra por
não ter sabido ser aquele que se esperava que eu fosse, por não ter sido capaz
de libertar uma mulher do peso, na sua vida adulta, de uma infância desordenada
e solitária, eu sei, eu reconheço, nem sequer consegui introduzir alguma ordem,
um mínimo de tranquilidade, na sua cabeça às vezes confusa, avariada, fraca de
mais para os seus devaneios e aspirações pouco realistas. E no entanto, juro-te,
amava-a, e por vezes ainda me lembro dela com saudades e como se fosse possível
corrigir tudo, mas se me lembro dela assim é porque me esqueço de que ela, com
o seu comportamento imoral, contaminou e destroçou recordações boas que eu
tinha de lugares e de acontecimentos do passado, recordações e acontecimentos
que eu pensava ingenuamente estarem ao abrigo da traição, protegidos da
destruição.
E aí está,
acrescentei eu elevando a voz, eu acho que continuei em grande parte a escrever
para que tu leias o que eu escrevo, porque tu me dizes que é em situações de
crise e de perigo e de solidão ou sofrimento que nos aproximamos de zonas do
ser inacessíveis a outras pessoas e até a nós próprios, pois quando tudo parece
estar a correr bem, cada coisa no seu sítio, tranquilamente, sem perturbar a
ordem das outras coisas no universo, a gente adormece, deixa-se anestesiar. Não
devias deixar-me acreditar que o que eu escrevo serve para alguma coisa,
progride nalguma direcção, na direcção de alguma terra ou água, floresta ou
jardim que valha a pena explorar, além de me libertar momentaneamente da
consciência aguda, do fardo insuportável da derrota e da dor da impotência. Não
sei se fico mais feliz por entender as coisas como as entendo, por falar delas
como falo, não sei, sinceramente, mas não importa, neste momento é assim.
Remorsos,
tenho tantos remorsos. Porquê? Não sei. Se pudesse voltar atrás e recomeçar
tudo de novo. Não sei se queria, mas é o que sinto às vezes, e penso que seria
mais modesto, mais atento, mais humano, mais generoso, teria em consideração a
morte dos outros, o fardo deles e não apenas o meu, não me comportaria como uma
espécie de deus adolescente, irascível apesar de amante, provavelmente distraído
do amor sem se dar conta disso.
E de onde me
vem a necessidade de corrigir o erro se não é do conhecimento que eu adquiri
enfim acerca da vida, uma vida onde nada se repete, onde as possibilidades de
encontrar o amor e de se entregar a objectivos por que vale a pena lutar são raras?
Talvez me tenha saído das entranhas onde estava escondida esta insaciável
necessidade de falar, de escrever. Mas o que eu digo, o que eu escrevo, o que
eu penso, tudo o que tenho feito e pensado ultimamente, não será inútil, não
será continuar a entranhar-se na obsessão e prolongar o mal-entendido? É
possível, é realmente possível, tu achas, redimirmo-nos dos erros que
cometemos? Falar sobre o que já
passou mas não foi esquecido, reordenar no nosso espírito o que aconteceu
desordenadamente resolve algum problema?
Tu, paciente
do outro lado, continuaste a ouvir-me, e repetiste que as minhas contradições
eram, são, enormes e bem visíveis, e que eu nunca sacrifiquei nada na minha
vida a essa mulher que tinha uma devoção sem fim por ti, eu sei, eu falei com
ela, ela deixou tudo para ir ter contigo e tu o que é que lhe deste, o que é
que sacrificaste, em que é que os teus hábitos mudaram, vocês os homens não têm
consciência de tudo o que as mulheres abandonam, sacrificam muitas vezes, para
vos amar, para vos seguir.
Eu queria
protestar, defender-me, explicar que tinha feito o que podia, que não era
selvagem nem nenhum monstro mas que por razões que me escapavam, que eu não
conseguia identificar nem portanto tentar entender, as coisas se tinham
deteriorado, e sim eu amo-a disse eu com uma lágrima a descer no lado esquerdo
da minha face, mas a pessoa que eu amo não é a pessoa de quem me separei há uns
meses, essa não a amo, a que eu amo é outra, é aquela que eu conheci antes de
ela ter cometido o pecado original que havia de fazer apodrecer lentamente as
nossas relações, aquilo a que no início chamámos o amor, a paixão, a alegria, e
que desapareceu, eu acho que esperei muito tempo por ela depois de ela se ter
perdido nas brumas confusas de uma montanha inacessível ao meu olhar.
Tu, do outro
lado do oceano, insististe cruelmente que eu não a tinha amado o suficiente,
que até tinha mostrado em público várias vezes a pouca consideração que tinha
por uma mulher que visivelmente me amava, e que mesmo depois de ter errado teve
a coragem de voltar para ti, só que tu nunca lhe perdoaste, e foi isso que vos
separou, e agora alegra-te ou chora porque nunca mais hás-de pegar-lhe na mão,
ela não deixa, nem a vais beijar nunca mais, ela não deixa, tu para ela
morreste, mete-te isso na cabecinha, a vossa história, a dos dois, acabou.
Eu não protestei
porque talvez fosse verdade, talvez eu fosse o grande, o principal responsável
por tudo aquilo de que ela me acusava. Eu lamentava profundamente não ter
sabido ser melhor, tinha mesmo pena e não entendia sequer o que é que
acontecera, porque razão acontecera o que tinha acontecido, mas paciência,
sorry, é assim, que se há-de fazer agora.
Do outro lado
do oceano ela disse de novo que eu tinha dado muito pouco para a relação com a
mulher que me amara tanto, e a mim apeteceu-me protestar e dizer porra merda tu
não sabes tu não estiveste cá e depois as coisas não se deterioram assim como
tu pensas, positivista é o que tu és, e não te dás conta, tu uma mulher
inteligente, que não é num momento preciso que se pode identificar, não é por
uma razão clara que se possa nomear, a que se possa dar um nome, que as coisas
se deterioram, não, minha querida, não é possível escrever na certidão de óbito
do amor a data exacta nem a razão exacta do falecimento, eu acho que é pouco a
pouco, sem a gente se dar conta, que o amor se vai destruindo, estragando,
desaparecendo, é em coisas sem importância nenhuma, em incidentes irrisórios,
em coisas mínimas, realmente nada de grave aparentemente, mas o animalzinho de
pele branca imaculada, cheio de saúde, cheio de força, cheio de desejos, de
focinho jovem e luzidio que apetece beijar, vai-se transformando noutra coisa,
e essa outra coisa nós não sabemos que nome dar-lhe, ficamos perdidos, é
subitamente um bicho difícil de classificar, e como tratar com ele, o que nos
perturba bastante, e nos começa a preocupar de maneira vaga, imprecisa, e a
interferir com tudo o resto na nossa existência, e então, talvez por comodismo,
ou será por preguiça, ou ignorância, por incapacidade, concluímos que o amor
morreu e que não há necessidade de chamar nenhuma ambulância para o reanimar,
para tentar salvá-lo, porque é tarde de mais, o momento da salvação passou, não
há nada a fazer.
Creio que
podes estar de acordo comigo, comentei eu a seguir à minha tirada, o que eu
disse, aliás, não entra em contradição com as tuas observações, repara que se
àquilo em que o amor se transformou pudéssemos dar um nome, se a falar o
pudéssemos nomear, se lhe pudéssemos tirar uma fotografia ou fazê-lo passar
pelos raios x, provavelmente encontrávamos uma solução, e o amor que já não era
amor mas um corpo, um ser vivo, um objecto, talvez uma espécie de castanha que
caiu no caminho da floresta, com casca mas sem vida, um objecto desconhecido,
diferente, geométrico, até surpreendente, mas que ninguém sabia como nomear nem
entender, animal provavelmente, doença pura ou monstro vigoroso, mas se o
pudéssemos ver, identificar, talvez também pudéssemos compreendê-lo e salvá-lo.
Quem sabe se debaixo da sua pele não estava escondido, envergonhado, cheio de
medo, aterrorizado, um resto, talvez os olhos ou a boca, ou as mãozinhas, do
animal de pele branca imaculada, quem sabe, um resto ainda daquele que tinha
sido o amor verdadeiro, e talvez a partir desse resto pudesse renascer, forte,
novo, para durar, o velho amor, depois da sua transformação, da sua passagem
arriscada, perigosa, pelo corpo do monstro, depois da sua crise dolorosa e
quase fatal mas que nos escapara e que fizera com que o ser doente não tivesse
encontrado lugar, no nosso universo claramente definido e demarcado, onde
habitar, onde esperar, onde sobreviver, por isso nós não o quisemos ver,
preferimos ignorá-lo, repudiá-lo, afastá-lo de vez e com raiva, com um pontapé,
do nosso caminho, era preciso eliminá-lo, não é, e depressa, para ele não nos
incomodar demasiado, expulsá-lo da nossa vida para que não fosse posto em causa
o que já sabíamos, isto é, que o amor nasce e morre, que começa e acaba, e que
é possível fazer afirmações destas com a certeza científica que os médicos usam
nas certidões de óbito.
Falámos, como
nós falámos esta noite, agora estou cansado e tu também deves estar, para ti
são horas de ir trabalhar, para mim são horas de dormir, felizes aqueles que já
estão no seu dia, a preenchê-lo correctamente, aqueles a quem se pede, de quem
se espera, que só vejam o que é visível, que só saibam o que se aprendeu na
escola ou com o pai e a mãe, felizes esses, os simples, para quem as palavras
têm apenas um significado e o resto é vício de infelizes, é especulação de
gente complicada. Mas eles existem ou são uma invenção da nossa arrogância?
Thursday, May 09, 2013
Sunday, May 05, 2013
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