Sunday, August 28, 2016

Misunderstanding


He saw you and to you 
he walked smiling. Any 
shadow in his soul, any 
unforgotten pain, any 
remorse? He believed
that you were the one who 
could understand everything. 
And talking to you, in his eyes 
the light of hope and excitement
flared. He was not careful enough, 
though. He was not paying attention 
to you, all he could see was your 
luminous face, your red lips, your 
eyes: your external soul as he 
imagined it. He was unable to 
guess that inside you a fire was 
burning, that pain and doubt 
were the drive of your disturbed 
soul. When you told you him to
go away after you have  kissed 
his hands he did not understand.
He left but forever he would be the 
one who missed the opportunity.


(Feb. 23, 2014)

La fille de Rimbaud


Tendez-moi votre petite main
et que je l’embrasse et
qu’entre vos doigts les miens
se mettent à caresser votre âme.

Vous, qui parmi toutes les filles
êtes sortie de l’anonymat et
vous êtes rendue chère à mon cœur,
je vous en supplie, n’ayez pas
peur de devenir mon amie. Et
plus tard vous serez ma maîtresse et 
nous connaîtrons alors des plaisirs 
intimes que personne n’a connus. 

Car je vous adore  et vous admire
et votre belle intelligence me séduit
et vos petits pieds si charmants et jolis
je veux les caresser de mes lèvres attendris.

Et vous rirez et vous me parlerez de Rimbaud
et vous m’aimerez aussi, j’en suis fermement
convaincu, car votre bon cœur et votre joli sourire, 
je le devine déjà, jamais ne pourraient mentir.


Feb. 26, 2014

Thursday, August 18, 2016

Janelas a mais (brincadeira literária)

Janelas a mais

(Brincadeira literária)

Personagens: o escritor e o editor. O escritor está sentado diante da secretária do editor.


Escritor - Bom, finalmente podemos conversar. Demorou, mas chegou o momento. Gostou do meu livro?
Editor - O seu manuscrito? Hmmm...  Assim assim. 
Escritor - Sempre o mesmo! Exigente, sincero. É assim que eu gosto. A lisonja é uma ofensa e não ajuda  ninguém a triunfar na vida.
Editor - É verdade. As pessoas vivem distraídas e a reboque dos jornais. Não se sabe pensar, acredita-se no que se lê, no que se ouve dizer. A educação literária dos jovens está nas mãos de meia dúzia de jornalistas pedantes e ignorantes. Não contem comigo para esse programa!
Escritor - É por isso que nós não progredimos. Somos um país de analfabetos culturais. Incensar a banalidade como se ela fosse coisa séria é convidar as pessoas a aspirar à mediocridade.  
Editor - Tem roda a razão. E não é só um problema da literatura. Em política é a mesma coisa. Jornalistas, jornais, uma cambada de ignorantes, uns imbecis. É o que temos.
Escritor - Escritores que ninguém realmente lê a sério têm amigos nos jornais e passam por génios da escrita contemporânea. Enfim, passam quando passam. Nem toda a gente se deixa enganar.  
Editor - Uma  vergonha, meu amigo, uma vergonha.  O Eça, se cá voltasse, continuava a ter matéria para novelas, contos e romances. 
Escritor - Ah, o Eça! O grande Eça! Mas leitores incautos e ignorantes compram livros porque querem educar-se, querem estar actualizados e ter em casa aquilo de que se fala. Compram gato por lebre. Não que eu ache os gatos inferiores às lebres, mas o meu amigo entende-me.
Editor - E esses grandes escritores não se cansam de dar entrevistas, contam quando escreveram o primeiro poema, aquilo com que sonham, falam do gato e do cão. Uma comédia. 
Escritor - Nem mais. (...) Mas olhe, trouxe aqui comigo outro romance que acabei recentemente para que me dê a sua opinião.
Tira o manuscrito da pasta e coloca-o em cima da secretária do editor. 
Editor - Mas nós ainda não publicámos o manuscrito seu que cá temos. 
Escritor - Eu sei... Tenho-me perguntado porquê. Mas enfim, não ignoro que a procura é muita e que os editores não têm tempo para dar vazão a tudo o que lhes submetem.  
Editor - É verdade, claro que é verdade.  Mas há outra coisa, que no fundo vem a ser a mesma coisa: os seus livros vendem-se mal. 
Escritor - Ah ah! Já esperava essa observação, confesso. Mas nesse caso ofereçam-nos! 
Editor - Ah ah, de facto! Que belo sentido de humor o seu. 
Escritor - Eu não tenho amigos nos jornais, é por isso que os meus livros se vendem mal.
Editor - Por isso e por alguma outra razão, provavelmente. Nunca se sabe bem. 
Escritor - Eu reconheço que não sou um escritor fácil. Não escrevo para funcionários públicos nem para advogados, não escrevo para médicos nem para os professores de liceu, que é gente chega a casa cansada, que mal tem tempo para pensar - e que deve ser quem compra mais livros.
Editor - Ora aí está uma explicação em que eu não tinha pensado. Mas enfim, oferecer os livros não nos resolvia o problema, nem a mi nem a si. 
Escritor - Pois não. As pessoas precisam de gastar dinheiro para sentir que o que compraram os enriqueceu de alguma maneira, distinguindo-os da massa anónima imbecilizada.
Editor - Pois é, acontece com os livros a mesma coisa que acontece com as saias, com os casacos, com as camisas - e até com os automóveis. Sem sinais exteriores de riqueza ou identidade diferenciada... Como é que hei-de dizer... Enfim, passa-se despercebido, é-se mal visto ou nem sequer se é visto. 
Escritor - Essa é boa! É-se mal visto ou nem sequer se é visto. Eh eh. Uma lógica inflexível a sua. 
Editor - Fala a experiência, meu amigo, não se espante. (...) Mas diga lá, então.
Escritor -Diga-me lá de que é que não gostou no meu romance, nesse que aí têm há quase um ano.
Editor - Difícil de dizer. Deixe-me pensar. (…) Por exemplo: no seu romance há janelas a mais, de onde alguém vê passar alguém ou simplesmente contempla a paisagem. É apenas um exemplo de coisas que se podem melhorar. Não dá. 
Escritor - Janelas a mais? Essa surpreende-me. E não dá o quê? Não percebo.
Editor - Não dá para cativar o leitor, percebe? O leitor é um animal sequioso de prazeres fáceis. A maior parte dos leitores, em todo o caso, aqueles que permitem a um escritor ir sobrevivendo e acreditando.
O Editor levanta-se, vai a um armário buscar o manuscrito do romance, volta a sentar.se. Folheia o manuscrito. Depois continua:
Editor - Ora vejamos. (…) V u-lhe dar alguns exemplos. Página dois: “pela janela, Joana viu Eduardo atravessar a rua”. Página três: “pelo vidro da janela via-se um avião  cortar o céu”. Cortar o céu, meu Deus? Você tem cada uma! 
Escritor (Cínico) Não estou a ver, mas continue lá a sua inquisição...
Editor - Página quatro: “a janela dava para um quintal e as galinhas”, etc., sem interesse. Página cinco: “Malaquias abriu a janela, respirou, fundo depois pousou o olhar na árvore em frente, já envolvida pela bruma da noite”, etc., etc…. Que raio de nomes você inventa! Onde é que foi buscar este Malaquias? É algum vizinho seu? Enfim, já está a ver o que eu queria dizer: há janelas a mais no seu romance. Mais um exemplo, ao acaso. Página vinte: “ à janela, Eduardo concentrava-se no que lhe acontecera essa manhã quando tinha ido comprar pão...”  Está a ver, não se pode abrir uma página sem encontrar uma janela no seu romance... 
Escritor - Ah ah. É que quem procura sempre encontra. Quem parece estar obcecado com as janelas é o meu caro amigo. Senão não as tinha visto... 
Editor - Elas estão lá, eu tinha de as ver!
Escritor - Sim, já percebi. Mas um leitor sem preconceitos, alguém que não esteja de pé atrás, alguém que esteja sem má fé a fazer uma leitura normal, nem se dá conta disso. Afinal todos os livros estão cheios de portas e de janelas. E porquê? Precisamente porque é sempre entre as portas e as janelas que se passa muita coisa. E pelas janelas vê-se o que uma porta fechada ou uma parede não deixam ver. Evidentemente.
Editor- Ora, meu amigo, leitor sem preconceitos e leitura normal são coisas que não existem senão no puro mundo dos conceitos que nunca foram postos à prova. E depois não estou de acordo consigo. Numa obra literária tudo conta. Da primeira à última palavra tudo o que lá está conta. Senão não estava lá. Se não fosse para contar, não estava lá!
Escritor  (Irritado, mas contendo-se) - Estamos a desconversar. 
Editor - Em resumo: tem de mudar o seu estilo, corrigir, aperfeiçoar a sua técnica de composição. Você até nem escreve mal. Mas é preciso originalidade, é preciso surpreender, chocar. Sem originalidade não se vai a lado nenhum em literatura.
Escritor - Jaja! E no entanto a realidade prova exactamente o contrário. As livrarias estão a abarrotar de livros sem originalidade nenhuma. Até parece que usaram todos o mesmo programa de computador para escrever livros originalíssimos que são todos parecidos uns com os outros. 
Editor - Fico na minha: um escritor que não se esmera a ser original, que não sente em si , no seu ser profundo, o germe da originalidade, na minha opinião não tem o direito de escrever. Ou que escreva, já que não pode passar sem escrever. Mas escreva diários e não publique, isto é, não torne público o que por natureza deve continuar privado. Você sabe quantas centenas de milhares de livros se publicam todos os anos pelo mundo fora? 
Escritor (Desconsolado) - Vivemos entre portas e janelas e o meu caro amigo acusa-me de usar e abusar de janelas no meu romance. Repare que mesmo o que se passa na rua se passa antes ou depois de termos entrado e saído de casa. Não se pode andar sempre na rua. E se se está em casa é preciso ar, é preciso respirar. E é preciso deixar entrar a luz. Está a ver? É uma fatalidade: as janelas aparecem por todo o lado no meu romance e nos romances de outros escritores porque ocupam um lugar importante na nossa maneira de viver. 
Editor - A arte é selecção, meu amigo, tem de ser composição. A partir de certo material, o material da experiência, é certo. Mas a vida é caos. E a arte é, ou em todo o caso deve ser: ordem! A arte e a vida são coisas diferentes. Aliás é você que está sempre a dizer isso: não se confunda a arte com a vida, não se confunda o romance ou o poema com a autobiografia. Já se esqueceu? Nem sei já quantas vezes o ouvi proclamar essa distinção do seu credo estético!  
Escritor (Sem se desanimar, aparentemente, o escritor pega no manuscrito que tinha posto em cima da mesa no início da conversa) - Talvez este livro, o meu novo romance, lhe interesse. Não há nele uma única janela, não há nele o mínimo vislumbre de uma porta. 
Editor - Aha ah! O que só confirma o que eu lhe dizia. Até você se deu conta de que havia janelas e portas a mais nos seus livros, que era preciso inovar. Ora bem!
Escritor - Tudo depende do assunto, do tema, daquilo de que se está a falar, é claro. O estilo, a técnica, a composição, tudo depende dos objectivos que se perseguem. 
Editor - Nem mais. Nesse ponto estamos inteiramente de acordo. 
(O editor estende a mão para  manuscrito
Editor - Mas deixe-me ver.
Escritor - Foi para lho mostrar que cá vim. Faz favor. (Passa o manuscrito ao editor).
Editor - Posso ficar com o manuscrito? 
Escritor - Claro. Mas dê uma vista de olhos antes de eu me ir embora. Para ter uma ideia. 
O editor  folheia o manuscrito ao acaso.
Editor - Não é possível! 
Escritor - O que é que há agora? Não gostou do que leu?
Editor - Não é isso, não é isso, homem! 
Escritor - É o quê, então? 
Editor - O seu livro passa-se no deserto!
Escritor - E então? 
Editor - Mudança radical de lugar de acção. Entre a cidade e o deserto as diferenças são abismais, temos de reconhecer.
Escritor (Cínico?) - Sim, é verdade. No deserto não há portas nem janelas. 
Editor - Pois não. Mas repare…. (Follheia o manuscrito) Já vejo que há por aqui muita areia. Esperemos que seja areia a mais desta vez.
Escritor - Que se fale de areia num romance que se passa no deserto não lhe parece normal? (Irónico) No deserto há muita areia, há areia por todo o lado. Eu nunca fui ao deserto, mas é o que se diz…
Editor - Deixe-me ver melhor. (Folheia e cita) Ora bem. Hmmm…  Logo na primeira página lemos isto: “A areia queimava-lhe os pés.”  Na segunda página: “O vento fazia voar a areia.” Na página três: “Nas dunas, com a suavidade das suas curvas longas mas discretas, a areia… ”, etc...  Você não perde uma ocasião de falar da areia. Outra obsessão. Quem sabe se você não está a atravessar um período de crise de assunto. Essas coisas acontecem aos melhores. No seu livro anterior era só janelas para aqui, janelas para ali. Agora é só areia por todo o lado. Temos de reconhecer que há um risco evidente de monotonia. E quem diz monotonia em literatura diz aborrecimento. 
Escritor - O meu romance anterior passava-se na cidade. Na cidade há casas, as casas têm janelas, além de terem portas. E as pessoas é da janela que observam e vêem o que se passa na rua ou na paisagem.
Editor - Na cidade também há automóveis, bicicletas, aeroportos, hospitais, sei lá…. E você mal fala nisso, se bem me pareceu… 
Escritor - Os automóveis, os aeroportos e os hospitais também têm janelas... Não me lembro em pormenor, mas de certeza que... 
Editor - São janelas a mais e o resto é esquecido ou peca por não ser mencionado… É uma obsessão, tudo indica
Escritor - Uma obsessão minha ou uma obsessão sua? Isto já parece um interrogatório em que eu tenho de me defender. Além de ser editor, o senhor parece tem minúcias despropositadas, obsessões e limitações de... de critico literário… Desculpe eu dizer isto, mas estou um pouco desiludido consigo.
Editor - Não tem mal. A falar é que a gente se entende, não é? Eu não tenho preconceitos...
Escritor - O livro que lhe trago passa-se no deserto. É natural que fale de areia.
Editor - Como se no deserto só houvesse areia. E os cactos? No deserto há plantas e flores, há muitos cactos em particular. O verde dos cactos contrasta com o amarelo da areia, mas você parece que só vê areia por todo o lado. Alguma vez foi ao deserto? Ou só viu fotografias?
Escritor - Ora. Estou a perder o meu tempo. Você folheou umas páginas em cinco minutos e está a avaliar o livro como se o tivesse lido… É o que eu dizia há pouco: o amigo deve ter sido crítico literário antes de ser editor. Mas não lhe vou levar a mal as suas observações, já nos conhecemos há muito tempo e eu sei que o seu sentido de humor às vezes pode ser enervante..
Editor - Ora aí está! Eu sabia que não nos íamos zangar. Mas entenda-me bem: no deserto a areia nem sequer é o essencial. Cada escritor, é natural, tem as suas obsessões, uma visão limitada da realidade no seu conjunto, da realidade como totalidade. Mas é preciso disfarçar, dissimular. Abrir os olhos para outras coisas, escapar à obsessão particular que pode destruir um livro em particular… 
Escritor - Dissimular o quê? Não entendo nada.
Editor - Disfarçar a obsessão, tentar fugir à mania do momento. Por excesso de concentração em certos aspectos da realidade...  corre-se o risco de não ver o mais importante. E não se chega a ser um grande escritor se não se fala do que é importante. A cegueira para um escritor é a morte antecipada. 
Escritor - Peço desculpa. O Castilho era cego e vem mencionado em todas as Histórias da Literatura. Não é que eu o admire, mas enfim....
Editor - Ah, o Castilho! A porrada que ele levou, coitado... Desancaram nele como quem bate em monte de palha na eira... 
Escritor -  O Jorge Luís Borges era cego e é considerado um grande escritor...
Editor - Ah ah! Mas o Borges era um cego que via. Ele via com os olhos do espírito. A grande diferença é essa. Os olhos do espirito são importantes.
Escritor - E que mais? Estou a cair em mim e não é possível !
Editor - O que é que não é possível, meu amigo?
Escritor - O senhor editor tem estado a divertir-se à minha custa. Não acredito que pense tudo o que me disse… Não pode ser! 
Editor - Pode ser e é, esteja seguro disso. Eu tenho muito que fazer, não posso perder tempo a divertir-me em brincadeiras inúteis ou de mau gosto. Não me leve a mal. Eu sei que não me leva a mal. Já nos conhecemos há tanto tempo!
Escritor - Olhe, tudo bem. Não há problema. Mas nesse caso acho que levo o manuscrito. E vou-me embora. Já lhe roubei muito tempo. 
Editor - Leve os dois manuscritos e reveja tudo. É melhor assim. Depois falamos. O seu primeiro livro, que nós publicámos há uns dez anos, sem ter feito grandes vendas, era um belo livro.Ainda hoje se lê sem muito enfado.
Escritor -Sem muito enfado? 
Editor - Com algum prazer, era o que eu queria dizer. 
Escritor - Queria dizer e não disse. (...) E se eu agora me zangasse e atirasse os dois manuscritos pela janela e eles fossem aterrar na areia do seu jardim aqui em baixo?
Editor - Está a ver? Eu aprecio sinceramente o seu sentido de humor, a sua falta de rancor e de susceptibilidade. Presto-lhe homenagem com toda a sinceridade, do fundo do coração. 
Escritor - E eu fico-lhe agradecido a si, evidentemente. Nem só de literatura  são feitas as boas relações. 
Editor - Sabe que o Flaubert ficava horas inteiras agarrado a uma frase só porque não queria repetir uma palavra na mesma página? O génio é isso: exigência, paciência, teimosia.
Escritor - Falemos de coisas sérias.
Editor - Além disso, se me permite mais uma observação, os seus livros são um pouco longos. Pense em reduzir um pouco, em desbastar. Ganha com isso. 
Escritor - Ah! São demasiado longos também? Hoje estou a aprender muita coisa. Garanto-lhe não considero o dia perdido.
Editor - E outra coisa an da, mais um pormenor: tente meter mais personagens ao barulho. Os seus romances têm poucas personagens.  
Escritor - (Continuando na tentativa de manter uma distância irónica) E que mais, já agora? Aconselhe-me, meu amigo. 
Editor - A dizer a verdade nos seus livros não se passa nunca nada de importante. Desculpe a observação quase ridícula, mas eu sei que a minha sinceridade lhe agrada. 
Escritor - Ah! Mais uma novidade? Cote-me, conte-me lá.
Editor - No seu romance que cá tínhamos há janelas de onde alguém vê alguém atravessar a rua ou assiste ao pôr do sol....Ou janelas de onde alguém observa, por exemplo, as janelas do prédio em frente. Mas não se sabe aonde vai esse alguém que atravessa a rua. Nem quem é exactamente a pessoa que está sempre a ver coisas da sua janela. Nem quem vive por detrás das janelas da casa em frente. Os seus personagens ou as suas personagens mal existem e nunca ou raramente se encontram e falam.  
Escritor - E acha isso inverossímil? Que as pessoas não se encontrem nem falem é assim tão inverossímil? 
Editor - Talvez não seja inverossímil. Mas é sufocante. A monotonia ameaça.
Escritor - Se eu escrever um romance sem areia e sem janelas, um romance em que as pessoas se encontram, em que se saiba aonde vai quem atravessa a rua e quem mora no prédio em frente...  acha sinceramente que lhe pode interessar? Eu já estou por tudo e gostava de lhe agradar. 
Editor - Não sei, só vendo, não é? Como é que se pode saber? O assunto não é tudo num romance. É preciso coerência, convicção, técnica. A técnica é que permite dar forma digna desse nome ao assunto, à convicção. Não acha? 
Escritor - De facto. Tem toda a razão. Só vendo a obra acabada é que só pode saber o que ela vale, o que vale o assunto da obra.
Editor (Começando a levantar-se) - Bom, foi uma conversa útil, é sempre um  prazer estar consigo. Mas como lhe tinha dito, agora tenho uma reunião com o meu gráfico. (...) Aqui tem os dois manuscritos. Proceda a uma revisão séria e depois falamos. Não desanime, dúvidas todos nós as temos, acontece. Mas um homem morre de pé, não se dá por vencido sem luta. 
Escritor (Levanta-se também) - Nesse ponto estamos de acordo outra vez.
Editor - Temos estado de acordo em quase todos os pontos, reconheça! E já agora: porque não vai viver uns tempos para o campo? Mudar de ares refresca as ideias e distrai.
Escritor - Estou inteiramente de acordo, consigo, é preciso de vez em quando mudar de ares e distrair-se. 
Já os dois de pé, o editor estende a mão ao escritor, que lhe recusa a sua. E tudo acontece agora rapidamente: o escritor pega nos dois manuscritos, aproxima-se da janela, dá uma gargalhada monstruosa. E enquanto se atira para o vazio grita:
Escritor - A minha obra será póstuma! 
O editor sobressalta-se, evidentemente. Depois volta a sentar-se, suspira, olha vagamente para a  janela. Acende um cigarro, dá um murro na mesa. E diz:

Editor - Outra vítima da obsessão com a imortalidade. As pessoas nunca mais aprendem.

Wednesday, August 17, 2016

Na Livraria (Pesadelo)

Na Livraria

Duas personagens: um homem, dono da livraria; e um rapaz que vem comprar um livro.
O dono da livraria está sentado a olhar para as estantes ou para o ar. A porta abre-se, o rapaz entra. O dono da livraria não se levanta.

Rapaz - Vinha ver se encontrava um livro.
Homem - Que livro?
Rapaz -Um qualquer. É para oferecer.
Homem - As estantes estão cheias de livros. É só dizer o que quer.
Rapaz - Sei lá. Um livro que fale um pouco do mar.
Homem - Bom, às vezes o mar está presente, é referido num livro. Outras vezes está ausente. Mas de uma maneira ou de outra quase todos os livros falam do mar. Ou alguém tem saudades do mar ou alguém tem vontade de ir ver o mar.
Rapaz - Nunca tinha pensado nisso, mas é capaz de ter razão. Só que eu estava a pensar num livro que conte a história de um homem que ao voltar do trabalho encontra uma rapariga na paragem do autocarro. A cena passa-se numa cidade à beira-mar. Ela estava à espera do autocarro. Acha que existe um livro assim?
Homem - Ao princípio não parecia. Mas agora já me dei conta: você sabe bem o que quer!
Rapaz - É um livro para oferecer. Queria que ela gostasse dele.
Homem - Todos os livros se podem oferecer e podem ser apreciados. É uma questão de gosto pessoal. Mas as pessoas a quem se oferecem livros, se quer saber, muitas vezes nem os lêem. Agradecem muito, sorriem, dão um beijinho, mas depois esquecem-se do livro numa estante e não o lêem. Eu digo isto mas não estou a criticar ninguém. No fundo o que é importante é o gesto de oferecer alguma coisa a outra pessoa.
Rapaz - O livro que eu quero é para oferecer a alguém que se ama muito.
Homem - O amor é assunto melindroso, meu amigo. No seu caso eu seria mais prudente. As palavras nunca são suficientemente claras e prestam-se a confusões e más interpretações. Ofereça-lhe um chocolate, é mais seguro. Ou um colar de pérolas. Mas neste último caso leve-a consigo à loja porque as mulheres são esquisitas e tem de ser ela a dizer o que quer. Não se meta em sarilhos, oferecendo-lhe um livro você arrisca-se a estragar tudo desde o princípio.
Rapaz - Ah ah. Não goze comigo. Mas sendo assim, olhe, dê-me um livro qualquer. Ao acaso e depois logo se vê. Ou escolha-me um de que tenha gostado. É que estou com pressa, tenho o carro mal estacionado.
Homem - O acaso não existe. E eu deixei de ler há tanto tempo que não me lembro de nenhum livro que lhe possa sugerir.
Rapaz (Olhando para o relógio) - Que horas é que tem?
Homem - Não se excite nem se enerve, temos muito tempo.
Rapaz -É que ela está à minha espera no carro.
Homem - Se se cansar de esperar que se vá embora. O que não falta por aí são mulheres.
Rapaz - O senhor, pelos vistos, não quer vender os livros que cá tem.
Homem - Tenha calma. Acho-o muito nervoso. Você é um rapaz novo, não há razão para estar tão preocupado.
Rapaz (Perplexo e irritado) - Sabe que mais? Vou-me embora.
O rapaz dirige-se para a porta, tenta abri-la, mas não consegue.
Homem - Impossível.
Rapaz - Impossível ir-me embora? Está a brincar comigo.
Homem - A porta está fechada, como viu.
Rapaz - Então abra-a. Estou farto desta conversa de doidos.
Homem - Não posso abri-la.
Rapaz - Não pode abrir a porta?
Homem - Quem entra aqui, nunca mais sai.
Rapaz -Essa é boa! Abra a porta, se faz favor. Não me faça perder mais tempo, a minha noiva está à minha espera.
Homem - Noiva? O caso é mais sério do que eu imaginava. Ui ui!
Rapaz - Abra a porta ou temos pancadaria.
Homem - Não posso. É uma maldição. Eu não tenho culpa. Mas não posso fazer nada.
Rapaz - Não me vendeu o livro e agora ainda me está a aborrecer. Por favor, abra a porta.
Homem - Que livro é que queria? Não chegou a dizer.
Rapaz - Já percebi que o senhor gosta de desconversar. Mas eu não tenho tempo, ela está à minha espera no carro.
Homem - O melhor teria sido não vir. Agora é tarde de mais.
Rapaz (Tentando adaptar.se à situação) - Pois é, agora é tarde de mais. (...) Mas tarde demais para quê? O senhor é doido?
Homem - Agora não há solução.
Rapaz - Tenho de ficar aqui, é isso? Até lhe passar a maluqueira? Olhe que eu chamo a polícia.
Homem - Ora, a polícia.
Rapaz - Sim, a polícia.
Homem - E onde é que está a polícia? Demasiado ocupada a vigiar as ruas e as loja. E você sabe tão bem como eu que a polícia está em crise. Não há dinheiro para pagar tanto polícia quando na realidade eles passam a maior tempo sem fazer nada.
Rapaz - Por favor, deixe-me ir embora. A minha nova deve estar preocupada.
Homem - A preocupação passa-lhe, não vale a pena inquietar-se.
Rapaz - Tenho de ficar aqui até quando, então?
Homem - Não, nem isso. Na realidade você também não pode ficar aqui.
Rapaz - Se eu percebo alguma coisa desta conversa....
Homem - Não há nada a perceber, meu amigo. E também não há solução.
Rapaz - Esta história vai-lhe ficar cara. Isto é um rapto.
Homem - Rapto? Qual rapto? É bruxedo, é magia, é um mistério para elucidar e resolver.
Rapaz (Tentando negociar) - Posso dar uma vista de olhos aos livros?
Homem - Aqui dentro os livros não têm páginas. Ou antes, têm páginas, mas estão todas em branco. Só depois de se comprar o livro é que as letras se revelam e o livro então toma forma. É parte do mistério sem solução. Mas não tem importância, não acha?
Rapaz (Perplexo, mas não se dando por vencido) - Só leio os títulos nas lombadas, não os tiro da estante. Prometo.
Homem - Como eu conheço os títulos todos de cor, os livros não têm títulos. Seria perigoso.
Rapaz - Seria perigoso os livros terem títulos?
Homem - Os livros têm títulos, mas os títulos estão protegidos, só eu é que os conheço.
Rapaz - O senhor é de facto uma criatura original.Nesta Lisboa monótona do século XX encontro enfim alguém que se diverte. Parabéns!
Homem - Oh, não tem de agradecer.
Rapaz - Eu não agradeci nada.
Homem - Pois não. De certo modo, no entanto, agradeceu. Eu parvo não sou. Ou acha que sou idiota?
Rapaz - Eu não acho nada nem quero saber mais nada. Quero ir-me embora. Mas já que estou aqui, quero levar o livro para oferecer à minha noiva. Ela faz anos.
Homem - Ela faz anos? Que bonito! Dê-lhe os parabéns da minha parte. Sinceros. Diga-lhe que eu, se pudesse, teria tido imenso prazer em oferecer-lhe o livro eu mesmo.
Rapaz - Obrigado. A sua amabilidade é apreciada. Mas não há solução, segundo entendi, pois não?
Homem - Não. Infelizmente não há nenhuma solução.
Rapaz - Posso sentar-me? Arranja-me uma cadeira? Quem sabe se conversando não vamos encontrar uma solução?
Homem - Infelizmente eu tenho de me ir embora. A minha mulher e a minha filha estão à minha espera para jantar.
Rapaz (Entrevendo uma saída) - Boa ideia. Vamos, então.
Homem - Eu vou, mas você não pode ir, infelizmente. Já lhe expliquei. Não há solução. Quem entra aqui nunca mais pode sair. É assim e contra isso eu não posso nada. Está acima da minha autoridade. Em resumo: é impossível.
Rapaz (Continuando a tentar escapar à loucura da situação) - Não posso ir consigo? Aproveitava quando o senhor abrisse a porta.
Homem - Eu não saio pela porta.
Rapaz - Não sai pela porta?
Homem - Não. Tenho de utilizar uma janela.
Rapaz - De acordo, eu não me importo de sair pela janela também.
Homem - Impossível. E não lhe posso explicar porquê. Isto não é uma livraria. Há aqui um mal-entendido. Mas você não tem culpa. Não é o primeiro a meter-se em sarilhos ao entrar aqui.
Rapaz - Estou mesmo farto desta conversa de doidos. Quando é que acaba este pesadelo? O que é que quer que eu faça. Diga.
Homem - Os pesadelos quando começam nunca mais têm fim.
Rapaz - Não há saída? Não há solução? Suicido-me?
Homem - Não exageremos. De qualquer modo a morte aqui dentro é um puro conceito, não existe. É como nos livros. Ninguém ama realmente, ninguém morre realmente. É tudo imaginação.
Rapaz - E a vida, aqui dentro, é o quê? Já agora gostava de entender.
Homem - Não tente entender. Seria pior para si e é inútil.
Rapaz - Não posso ir-me embora, não posso comprar um livro, não posso suicidar-me? Que divertido! Nesta Lisboa monótona...
Homem - Sim, já sei, nesta Lisboa monótona Vossa Senhoria encontrou finalmente uma pessoa que o divertiu. Muito agradecido pela gentileza.
Rapaz - Exactamente. E quer saber uma coisa? Eu não vim aqui para comprar um livro. A compra do livro era um pretexto.
O rapaz neste momento tira uma pistola do bolso e aponta-a para o homem. 
Rapaz - Abra a caixa e passe para cá todo o dinheiro que lá tem. Isto é um assalto à mão armada.
Homem - Não me faça rir.
Rapaz - Já lhe disse que estou com pressa. O dinheiro.
Homem - Aqui dentro não há dinheiro. Isto não é um comércio. É tudo ilusão, é um mal-entendido. Vou-me embora. Fique bem.
Ouve-se um estrondo, uma espécie de explosão, com muitas chamas e fumo. O homem desaparece entre as chamas e o fumo. Quando se pode ver o que se passa, o rapaz aparece sentado no chão, tem a cara enfarruscada. Levanta-se com dificuldade e dirige-se às estantes. Tenta tirar um livro, mas descobre que os livros e as estantes estão pintados na parede, não existem realmente. A luz apaga-se bruscamente. O mistério nunca será esclarecido. Leiam o Fausto de Goethe, talvez ajude. 

Na Livraria (Um pesadelo)



Na Livraria

Duas personagens: um homem, dono da livraria; e um rapaz que vem comprar um livro.
O dono da livraria está sentado a olhar para as estantes ou para o ar. A porta abre-se, o rapaz entra. O dono da livraria não se levanta.


Rapaz - Vinha ver se encontrava um livro.
Homem - Que livro?
Rapaz -Um qualquer. É para oferecer.
Homem - As estantes estão cheias de livros. É só dizer o que quer.
Rapaz - Sei lá. Um livro que fale um pouco do mar.
Homem - Bom, às vezes o mar está presente, é referido num livro. Outras vezes está ausente. Mas de uma maneira ou de outra quase todos os livros falam do mar. Ou alguém tem saudades do mar ou alguém tem vontade de ir ver o mar.
Rapaz - Nunca tinha pensado nisso, mas é capaz de ter razão. Só que eu estava a pensar num livro que conte a história de um homem que ao voltar do trabalho encontra uma rapariga na paragem do autocarro. A cena passa-se numa cidade à beira-mar. Ela estava à espera do autocarro. Acha que existe um livro assim?
Homem - Ao princípio não parecia. Mas agora já me dei conta: você sabe bem o que quer!
Rapaz - É um livro para oferecer. Queria que ela gostasse dele.
Homem - Todos os livros se podem oferecer e podem ser apreciados. É uma questão de gosto pessoal. Mas as pessoas a quem se oferecem livros, se quer saber, muitas vezes nem os lêem. Agradecem muito, sorriem, dão um beijinho, mas depois esquecem-se do livro numa estante e não o lêem. Eu digo isto mas não estou a criticar ninguém. No fundo o que é importante é o gesto de oferecer alguma coisa a outra pessoa.
Rapaz - O livro que eu quero é para oferecer a alguém que se ama muito.
Homem - O amor é assunto melindroso, meu amigo. No seu caso eu seria mais prudente. As palavras nunca são suficientemente claras e prestam-se a confusões e más interpretações. Ofereça-lhe um chocolate, é mais seguro. Ou um colar de pérolas. Mas neste último caso leve-a consigo à loja porque as mulheres são esquisitas e tem de ser ela a dizer o que quer. Não se meta em sarilhos, oferecendo-lhe um livro você arrisca-se a estragar tudo desde o princípio.
Rapaz - Ah ah. Não goze comigo. Mas sendo assim, olhe, dê-me um livro qualquer. Ao acaso e depois logo se vê. Ou escolha-me um de que tenha gostado. É que estou com pressa, tenho o carro mal estacionado.
Homem - O acaso não existe. E eu deixei de ler há tanto tempo que não me lembro de nenhum livro que lhe possa sugerir.
Rapaz (Olhando para o relógio) - Que horas é que tem?
Homem - Não se excite nem se enerve, temos muito tempo.
Rapaz -É que ela está à minha espera no carro.
Homem - Se se cansar de esperar que se vá embora. O que não falta por aí são mulheres.
Rapaz - O senhor, pelos vistos, não quer vender os livros que cá tem.
Homem - Tenha calma. Acho-o muito nervoso. Você é um rapaz novo, não há razão para estar tão preocupado.
Rapaz (Perplexo e irritado) - Sabe que mais? Vou-me embora.
O rapaz dirige-se para a porta, tenta abri-la, mas não consegue.
Homem - Impossível.
Rapaz - Impossível ir-me embora? Está a brincar comigo.
Homem - A porta está fechada, como viu.
Rapaz - Então abra-a. Estou farto desta conversa de doidos.
Homem - Não posso abri-la.
Rapaz - Não pode abrir a porta?
Homem - Quem entra aqui, nunca mais sai.
Rapaz -Essa é boa! Abra a porta, se faz favor. Não me faça perder mais tempo, a minha noiva está à minha espera.
Homem - Noiva? O caso é mais sério do que eu imaginava. Ui ui!
Rapaz - Abra a porta ou temos pancadaria.
Homem - Não posso. É uma maldição. Eu não tenho culpa. Mas não posso fazer nada.
Rapaz - Não me vendeu o livro e agora ainda me está a aborrecer. Por favor, abra a porta.
Homem - Que livro é que queria? Não chegou a dizer.
Rapaz - Já percebi que o senhor gosta de desconversar. Mas eu não tenho tempo, ela está à minha espera no carro.
Homem - O melhor teria sido não vir. Agora é tarde de mais.
Rapaz (Tentando adaptar.se à situação) - Pois é, agora é tarde de mais. (...) Mas tarde demais para quê? O senhor é doido?
Homem - Agora não há solução.
Rapaz - Tenho de ficar aqui, é isso? Até lhe passar a maluqueira? Olhe que eu chamo a polícia.
Homem - Ora, a polícia.
Rapaz - Sim, a polícia.
Homem - E onde é que está a polícia? Demasiado ocupada a vigiar as ruas e as loja. E você sabe tão bem como eu que a polícia está em crise. Não há dinheiro para pagar tanto polícia quando na realidade eles passam a maior tempo sem fazer nada.
Rapaz - Por favor, deixe-me ir embora. A minha nova deve estar preocupada.
Homem - A preocupação passa-lhe, não vale a pena inquietar-se.
Rapaz - Tenho de ficar aqui até quando, então?
Homem - Não, nem isso. Na realidade você também não pode ficar aqui.
Rapaz - Se eu percebo alguma coisa desta conversa....
Homem - Não há nada a perceber, meu amigo. E também não há solução.
Rapaz - Esta história vai-lhe ficar cara. Isto é um rapto.
Homem - Rapto? Qual rapto? É bruxedo, é magia, é um mistério para elucidar e resolver.
Rapaz (Tentando negociar) - Posso dar uma vista de olhos aos livros?
Homem - Aqui dentro os livros não têm páginas. Ou antes, têm páginas, mas estão todas em branco. Só depois de se comprar o livro é que as letras se revelam e o livro então toma forma. É parte do mistério sem solução. Mas não tem importância, não acha?
Rapaz (Perplexo, mas não se dando por vencido) - Só leio os títulos nas lombadas, não os tiro da estante. Prometo.
Homem - Como eu conheço os títulos todos de cor, os livros não têm títulos. Seria perigoso.
Rapaz - Seria perigoso os livros terem títulos?
Homem - Os livros têm títulos, mas os títulos estão protegidos, só eu é que os conheço.
Rapaz - O senhor é de facto uma criatura original.Nesta Lisboa monótona do século XX encontro enfim alguém que se diverte. Parabéns!
Homem - Oh, não tem de agradecer.
Rapaz - Eu não agradeci nada.
Homem - Pois não. De certo modo, no entanto, agradeceu. Eu parvo não sou. Ou acha que sou idiota?
Rapaz - Eu não acho nada nem quero saber mais nada. Quero ir-me embora. Mas já que estou aqui, quero levar o livro para oferecer à minha noiva. Ela faz anos.
Homem - Ela faz anos? Que bonito! Dê-lhe os parabéns da minha parte. Sinceros. Diga-lhe que eu, se pudesse, teria tido imenso prazer em oferecer-lhe o livro eu mesmo.
Rapaz - Obrigado. A sua amabilidade é apreciada. Mas não há solução, segundo entendi, pois não?
Homem - Não. Infelizmente não há nenhuma solução.
Rapaz - Posso sentar-me? Arranja-me uma cadeira? Quem sabe se conversando não vamos encontrar uma solução?
Homem - Infelizmente eu tenho de me ir embora. A minha mulher e a minha filha estão à minha espera para jantar.
Rapaz (Entrevendo uma saída) - Boa ideia. Vamos, então.
Homem - Eu vou, mas você não pode ir, infelizmente. Já lhe expliquei. Não há solução. Quem entra aqui nunca mais pode sair. É assim e contra isso eu não posso nada. Está acima da minha autoridade. Em resumo: é impossível.
Rapaz (Continuando a tentar escapar à loucura da situação) - Não posso ir consigo? Aproveitava quando o senhor abrisse a porta.
Homem - Eu não saio pela porta.
Rapaz - Não sai pela porta?
Homem - Não. Tenho de utilizar uma janela.
Rapaz - De acordo, eu não me importo de sair pela janela também.
Homem - Impossível. E não lhe posso explicar porquê. Isto não é uma livraria. Há aqui um mal-entendido. Mas você não tem culpa. Não é o primeiro a meter-se em sarilhos ao entrar aqui.
Rapaz - Estou mesmo farto desta conversa de doidos. Quando é que acaba este pesadelo? O que é que quer que eu faça. Diga.
Homem - Os pesadelos quando começam nunca mais têm fim.
Rapaz - Não há saída? Não há solução? Suicido-me?
Homem - Não exageremos. De qualquer modo a morte aqui dentro é um puro conceito, não existe. É como nos livros. Ninguém ama realmente, ninguém morre realmente. É tudo imaginação.
Rapaz - E a vida, aqui dentro, é o quê? Já agora gostava de entender.
Homem - Não tente entender. Seria pior para si e é inútil.
Rapaz - Não posso ir-me embora, não posso comprar um livro, não posso suicidar-me? Que divertido! Nesta Lisboa monótona...
Homem - Sim, já sei, nesta Lisboa monótona Vossa Senhoria encontrou finalmente uma pessoa que o divertiu. Muito agradecido pela gentileza.
Rapaz - Exactamente. E quer saber uma coisa? Eu não vim aqui para comprar um livro. A compra do livro era um pretexto.
O rapaz neste momento tira uma pistola do bolso e aponta-a para o homem. 
Rapaz - Abra a caixa e passe para cá todo o dinheiro que lá tem. Isto é um assalto à mão armada.
Homem - Não me faça rir.
Rapaz - Já lhe disse que estou com pressa. O dinheiro.
Homem - Aqui dentro não há dinheiro. Isto não é um comércio. É tudo ilusão, é um mal-entendido. Vou-m embora. Fique bem.
Ouve-se um estrondo, uma espécie de explosão, com muitas chamas e fumo. O homem desaparece entre as chamas e o fumo. Quando se pode ver o que se passa, o rapaz aparece sentado no chão, tem a cara enfarruscada. Levanta-se com dificuldade e dirige-se às estantes. Tenta tirar um livro, mas descobre que os livros e as estantes estão pintados na parede, não existem realmente. A luz apaga-se bruscamente. O mistério nunca será esclarecido. Leiam o Fausto de Goethe, talvez ajude. 

Monday, August 08, 2016

A lot to say



You asked me and I answered you.
What did you say? What did I say?
Words come out of my mouth so easily.
I didn’t mean it, I swear. But anyway.
And why did you ask me? Nonsense.
Where have you been? I almost forgot
that you exist. Gosh, is that what you mean?
Every evening I would think of you. As
if you existed, I would talk to you. But no,
it was not so important, just the trivial 
gibberish. You may remember how it used 
to be. I will never see you again, never
talk to you again, you are dead. How do
I know? I don’t know, I just say it, I enjoy 
saying it. Is that important? I don’t think so. 
No, you are not an idiot, you are just trying 
to find your  way out in the labyrinth. I am very 
aware of your effort. I am full of sympathy. God
bless you. We all have some excuse to remember
when things go wrong. You do and I do. Have you
ever been in Porto Rico? Or in London? In Paris?
I may have seen you there. No, I wasn’t there last
week, I am having strange dreams lately. You forgot
to tell me. You never wrote to me indeed. You were
so busy writing your crazy story. Is it ready to
print? Not yet? Don’t worry, be patient. This
kind of poem is born of the pure physical pleasure
of writing with one of my old English fountain pens. 
I purchased it in Portobello years ago, when I was still
living in London. Every Saturday I would go to
Portobello. Sometimes I would have a pizza and
a glass of Chianti near the corner where they
used to sell  cheap CDs. Then I would go to see
the guy who had a lot of old fountain pens to sell.
I purchased a few but two of them I gave to women.
Stupid idea. Almost sure they never use them and are
not even aware of the value of the gift. But so is life,
a perpetual misunderstanding. We do one thing after
the other as if belonging to the same coherent
narrative. Maybe they do but I am not so sure.
It’s irrelevant. We will all die soon, one after the
other, silently, tired and exhausted. And the world
will not even pay attention to us, the world doesn’t
need us. The world? Just a concept, nothing else.
Why would the trees and the rivers feel any pain?
They don’t care. Nobody cares in fact, we are all
alone in our bodies, we search the pleasure and
face all kind of fears, we expect to be loved, we
imagine our death to be an impossible event. I
could go on talking until the end of this notebook, 
until the end of the night. But what for? No need.
I don’t even know why I started all this bla bla bla.

Let’s put an end to it. Have a good night, sleep well.
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